Textos & Imagens 8



O meu primeiro documentário da Série “Vidas com Rumo” teve origem na amizade à primeira vista, que assim como o amor também acontece, entre o Abel Escoto e eu próprio, durante a rodagem de “Lotação Esgotada” de Manuel Guimarães em 1971, sim, o de “Vidas sem Rumo.”
 
Quando o Abel se reformou e deixou de estar sempre ocupado com filmagens, a temível depressão pós-paragem profissional entrou-lhe sorrateiramente pela casa, corpo e ânimo dentro; ele pertencia a um tipo de profissionais para quem a vida era a vida profissional; tudo girava à volta dos trabalhos que tinha como operador/director de fotografia. A agravar esta situação dava-se o facto do Abel não ter tido filhos no seu casamento com a Ivone, seu amor de sempre e para sempre.
 
Assim, um dia, de visita ao apartamento onde viviam em Campolide, ao pé da antiga localização da Ulysseia, e encontrando-me também numa fase de inactividade motivada pelo desemprego, fiz-lhe a proposta de trabalharmos os dois juntos na realização de um documentário sobre a sua vida para, não só nos mantermos ocupados e ligados à produção de filmes, como também para que (e este objectivo era um segredo meu bem guardado) ele se desse conta do valor que o seu trabalho tinha tido e quão variada e cheia fora a sua vida a fazer o que aos 12 anos em Castelo Branco lhe surgira miraculosamente numa sala de projecção, o primeiro filme sonoro da sua vida, “A parada do Amor” de Lubitsch, como propósito vital (tivera tido muita sorte naquela pia baptismal com fotogramas e sons bentos).
 
Foram quase dez anos de relação intensa, recheados de dias de filmagens, para os quais o Abel tinha de se preparar arrumando as memórias, pesquisando documentos e fotos em álbuns e gavetas, escrevendo textos, aceitando as folhas de serviço que na véspera lhe comunicava, e dispondo-se com um entusiasmo inabalável e de quase adolescente a fazer o que fosse preciso para o registo videográfico das suas histórias.

Como seu amigo e conhecedor do seu carácter supinamente vertical, sempre aceitei as histórias que me contava como verdadeiras e tentava dar-lhes forma e ilustração na montagem. Contudo, havia uma que dizia respeito a um curso que o Gianni di Venanzo se propusera dar aos directores de fotografia portugueses no estúdio da Tobis e que terminara de maneira dramática para o ilustre director de fotografia italiano, ao não conseguir em dois ensaios consecutivos que o negativo impresso segundo os seus parâmetros tivesse resultado numa qualquer imagem na película negativa, após revelação nos laboratórios da mesma Tobis. O Abel não tinha tido a coragem de dizer ao Gianni di Venanzo durante os testes que, da maneira como iluminara os planos a filmar e com as aberturas que dava ao assistente de câmara, o resultado seria o que foi: nenhuma imagem impressa, pois que seria revelada nos laboratórios da Tobis que o Abel conhecia de ginjeira. A apreciação final de di Venanzo fora: “Meus caros, não tenho nada a ensinar-vos, pois se conseguem trabalhar com este laboratório, sabem mais do que eu!”
 
Ora, sempre que agarrava na montagem desta história, bailava entre o ponho, não ponho, por, apesar de acreditar no Abel, me custar a acreditar que a um técnico de tanta fama pudesse ter acontecido tal.
 
Um dia, durante as pesquisas documentais que efectuei na Biblioteca da Cinemateca, buscando documentos que ilustrassem as histórias narradas, folheando entre outros os vários volumes em que os números da revista Plateia se encontravam encadernados, e depois de já ter tido a confirmação de que o di Venanzo estivera em Lisboa para dar aulas a técnicos portugueses da imagem, deparei com o seguinte título: Morreu em Roma o famoso operador Gianni di Venanzo – Convidado de honra do último Festival de Cinema de Lisboa. Ilustravam o artigo duas fotos do funeral com personagens grandes da época como Mankiewicz, Capucine e Rosanna Schiaffino; mas, lendo a notícia até final, o meu coração quase rebentou de alegria quando, preto no branco, lá estava escrito o seguinte período: Infelizmente as suas lições na Tobis acabaram por desiludi-lo profundamente, perante os resultados obtidos no laboratório com os trabalhos efectuados durante as suas lições.
 
E pus a história na montagem final, com o duplo contentamento de poder dá-la ao público e de ter a confirmação da rectidão do meu amigo para sempre, Abel Escoto.
 
Miguel Cardoso
Fevereiro 2018 
 
Revista Plateia, n.º 265, 1 Março 1966, Pág.23

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