Textos & Imagens 6



“Modas & Bordados” surge no ano de 1920 como suplemento do jornal “O Século”, periódico diário de Lisboa fundado em 1880 pelo jornalista Sebastião de Magalhães Lima, e foi uma publicação dirigida, não só mas essencialmente, à mulher, abordando temas como moda, culinária, etiqueta, beleza, cultura, educação, entre outros.
Em 1928, a revista ganha outra dimensão sob a direção de Maria Lamas (desde logo patente na mudança de nome que passa a ser “Modas & Bordados: Vida Feminina”), introduzindo novas temáticas centradas nas atividades culturais, políticas e sociais desenvolvidas por mulheres e nos seus direitos, desempenhando um papel educativo na construção de um novo discurso na imprensa feminina. Também em 1928 surgira a revista “Cinéfilo”, igualmente suplemento do mesmo jornal – e já agora, a título de curiosidade, aos leitores era oferecida a possibilidade de assinatura de ambos, com preços que iam desde 17$50 por uma assinatura por três meses para continente e ilhas.
Mas é nas páginas do primeiro que as fotografias que compõem o álbum são publicadas, demonstrando a influência da moda cinematográfica no quotidiano da época. De facto, o guarda-roupa das personagens define tempos e espaços com tal intensidade que de imediato se tornavam objetos de desejo dos espectadores; os figurinos fazem assim parte do quotidiano e a força expressiva e “emocional” do guarda-roupa é um dos aspetos mais determinantes de um filme, permitindo trabalhar a imaginação dentro da própria criação.
O álbum que nos chegou, infelizmente com muitas páginas em branco, inclui os retratos de atrizes com a anotação a tinta do número respetivo da revista (todos eles do ano de 1940), e no verso das imagens surge, ora em inglês ora em português, o texto (assinado pelos departamentos de publicidade dos grandes estúdios de cinema norte-americanos) onde consta a descrição do guarda-roupa. Os figurinos apresentados são endossados por atrizes como Vivien Leigh, Janice Chambers, Jo Ann Sayers, Jeanette Macdonald, Joan Crawford, Lana Turner, Judy Garland, entre outras. 
Nelas se pode ver como a moda e o cinema são refletores de mudança, transformações políticas, económicas, sociais, culturais, em que a sociedade é sensível aos seus estímulos, adotando os estilos impostos pelas estrelas de cinema, que determinam, ou melhor, ditam as tendências, podendo ser negativas ou positivas, dependendo dos movimentos dos fluxos naturais das sociedades. A mulher representada neste álbum é decidida, lutadora, criativa, económica e mais liberta de preconceitos, com figurinos simples, que lhe possa permitir também trabalhar.
O conjunto de fotografias de atrizes que compõem o “Álbum Modas & Bordados”, além da sua delicada estética, constitui um documento histórico valioso na medida em que nos conta histórias diversas. Narrativas visuais contextualizadas e que nos transportam a uma determinada época histórica, politica, social e cultural através do seu guarda-roupa, penteados, representação cénica, e do seu objeto de “abrigo”, o álbum em si.
Citando André Rouillé, “O álbum não é um recetáculo passivo. Ele não agrupa, não acumula, não conserva, nem arquiva sem classificar e redistribuir as imagens, sem produzir sentido, sem construir coerências, sem propor uma visão, sem ordenar simbolicamente o real. Associada a essa utopia de colocar sistematicamente em imagens o mundo inteiro, a fotografia-documento, relacionada ao álbum e ao arquivo, é encarregada da tarefa de ordená-lo. Nessa vasta empreitada, a fotografia-documento e o álbum (ou o arquivo) desempenham papéis opostos e complementares: a foto fragmenta, o álbum e o arquivo recompõem os conjuntos. Fundamentalmente, eles ordenam…”.
 
Maria do Sameiro André
 
Tipologia documental: álbum; provas fotográficas
Cota: AB3-12
Dimensões: 38x37x4 cm

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