Textos & Imagens 57



And no dialogue.  
We didn’t need dialogue.  
We had faces.
There just aren’t any faces like that any more.  

(Sunset Boulevard)

Vem este destaque a propósito da recente revisitação da exposição Os Anos de Cine-Revista (1917-1924), apresentada na rubrica “Exposições Virtuais” destes Gestos & Fragmentos, onde, a páginas tantas, vemos um conjunto de imagens de Emídio Ribeiro Pratas, espécie de catálogo de tipos ou expressões faciais do ator e realizador.
Transcrevendo as legendas manuscritas que se encontram inscritas nas pequenas provas fotográficas de cerca de 6×9 cm, enumeremo-las e aos estados que representam: “1) Naturalidade; 2) Juvialidade; 3) Paródia; 4) Alegria; 5) Desordem; 6) Amor; 7) Desconfiança; 8) Pensamento; 9) Susto; 10) Admiração; 11) Tristeza; 12) Repugnância; 13) Pranto; 14) Ódio; 15) Embriaguez; 16) Loucura; 17) Beleza Feminina; 18) Velhice Feminina”. 
Isoladamente, um pouco reenquadradas e sem esta descodificação textual como ao longo dos anos foram por vezes publicadas, cada uma destas imagens transmite de facto uma impressão de estranheza: “se nem sequer entendia as expressões fotográficas…”, escreve, a esse propósito, Paulo M. Morais, sobrinho-bisneto de Emídio Ribeiro Pratas, na sua demanda pelo familiar desconhecido[1].
Mas vistas em e como sequência, inscrever-se-ão na longa tradição da cultura visual – que atravessa tanto o domínio da ciência como o da arte e da filosofia – sobre a capacidade de comunicar por meio de expressões faciais, e do rosto como traço dessa comunicação. Filiar-se-ão assim nos ensaios fotográficos clínicos levados a cabo pelo médico neurologista francês Duchenne de Boulogne (1806-1875) com os seus pacientes do Hospital de la Salpêtrière[2], adaptados e prosseguidos nos manuais destinados a auxiliar artistas e atores a representar corretamente as emoções – incluindo os livros sobre arte e técnica cinematográficas. São disso exemplo a publicação portuguesa Arte Cinematográfica, de Vamorélis (ed. Tip. Roza Limitada, 1930) que refere, no capítulo intitulado “Expressões e Estados de Espírito”, o trabalho desenvolvido pelo “Doutor Duchenne”, e também a série de artigos “Expression and the Emotions” iniciada em julho de 1914 na revista Motion Picture Magazine, da autoria de Eugene Brewster (editor e co-fundador da publicação), que procura explicar aos seus leitores como interpretar as emoções das personagens através da fisionomia dos atores. Por outro lado, podemos também encontrar algumas sériesfotográficas de “cabeças expressivas”, como as publicadas, entre 1923 e 1924, na rubrica “The Expressions of…” da revista inglesa Picture Show, em que, por exemplo, Phyllis Haver surge “thoughtful”, “pensive”, “amused”, “coquettish” e Warner Oland, “incredulous”, “impassive”, “suspicious. 
Mas nenhuma delas compõe uma sequência como a de Emídio Ribeiro Pratas, e por isso onde atrás referimos “catálogo”, poderíamos na verdade ter indicado “portfolio” no sentido de mostruário composto para provar e evidenciar as capacidades artísticas do seu titular. Emídio Ribeiro Pratas, “enthusiasta da grande arte do gesto e do silêncio”[3], queria certamente fazer crer e convencer.

Teresa Barreto Borges

Tipologia documental: provas fotográficas
Cota: P1


[1] Pratas Conquistador – A História Desconhecida de um Charlot Português (ed. Casa das Letras, 2019). Também disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca.
[2] As experiências fotográficas de Guillaume-Benjamin-Amand Duchenne de Boulogne ilustrariam The Expression of the Emotions in Man and Animals, de Charles Darwin (1872).
[3] Cine-Revista, nº 1, 15 de março de 1917, p. 5.


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