Textos & Imagens 54



A inabalável reputação de David Bordwell e Kristin Thompson como historiadores e teóricos do cinema, bem como a consistência, coerência e escala da sua produção, contribuiram para tornar o corpus da sua obra canónico no domínio da literatura cinematográfica contemporânea. Em co-autoria ou autoria singular, esse corpus encontra-se amplamente representado no acervo da Biblioteca da Cinemateca[1] e tornou-se obrigatório nas bibliografias curriculares em diversos ciclos de estudos universitários no domínio do cinema, parecendo por si só definir o ambiente cultural contemporâneo nessa área. No seu blog, Bordwell declara enfaticamente praticar uma história poética dos filmes, miscigenando nas suas análises elementos da história genética (uma designação alternativa para um labor que é simplesmente historiografia bem constituída e documentada), história cultural, história das técnicas, estética e psicologia cognitiva. Nesse sentido, a arquitectura conceptual que dá forma aos seus trabalhos resulta de múltiplos influxos que, por sua vez, produzem o efeito de múltiplas vias exploratórias que, do nosso ponto de vista, desembocam numa bem conseguida tentativa de sistematicidade, elaboração sofisticada e cristalina clareza, oscilando entre a pedagogia esclarecida e esclarecedora e uma declarada vontade de elaborar uma filosofia da arte cinematográfica e uma filosofia da experiência estética em termos genéricos.
O aludido carácter canónico destas obras não deriva de qualquer assentimento definitivo e classicista das suas propostas de análise, mas antes do reiterado esforço de tornar visíveis, conscientes e intencionais os mecanismos da “máquina de emoções” que o cinema é, aproximando as experiências estéticas individuais desse mecanismo que Stanley Cavell classifica como uma “filigrana muito complexa”. E assim colocá-los ao alcance de todos e apressando a chegada da “idade democrática” da estética.
Por isso, de entre as obras que ilustram a presença de Bordwell e Thompson no acervo da Biblioteca, escolhemos A Arte do Cinema – Uma Introdução (tradução brasileira de Film Art – An Introduction), uma vez que este livro demonstra cabalmente as considerações genéricas atrás expostas sobre as características da produção dos dois autores.
Refira-se, a título introdutório à obra, que esta foi publicada pela primeira vez em 1979, tendo sido constantemente republicada, acrescentada e reelaborada ao longo das décadas que nos separam daquela data. Como dizem os autores no Prefácio:
“Nestes mais de 30 anos desde o começo do projecto, A Arte do Cinema passou por diversas revisões. Nós o ajustámos às necessidades dos educadores que o acharam útil, e tentámos ajustá-lo às mudanças nas maneiras como os filmes são feitos e vistos.” [p. 20-21]
É importante notar que os autores se referem à obra como um “projecto”, isto é como um desígnio que define um âmbito e que está em permanente mudança, e a ser constantemente avaliado nos seus limites, alcance e eficácia. No caso concreto, e tendo em conta a intenção manifesta dos autores, é um empreendimento que se prolonga e prolongará no tempo, incorporando sistematicamente novos conhecimentos e novas perspectivas. É notável, ainda, o facto de os autores considerarem a necessidade de ajustar o projectos e os seus parâmetros às necessidades específicas daqueles a quem se dirigem e que, para além do público alvo (os estudantes de cinema e de humanidades), integra o público em geral. Talvez seja essa uma das razões que explicam o facto de tantas obras oriundas do universo académico remeterem para esta obra e a considerarem como referência fundamental e obrigatória.
O carácter de “manual” de que esta obra se reveste (rapidamente contrariado pela profundidade e acuidade das análises propostas), resulta de um estudo exaustivo e sistemático do cienma como forma de expressão, abordando questões fundamentais da análise fílmica, como a forma, sistemas narrativos, realização, montagem, produção e pós-produção e todas as outras que nos dispensamos de referir, sob pena de tornar esta nota fastidiosa. O que ilustra na perfeição o desígnio de exaustividade que é parte integrante e estruturante bdo projecto e, sobretudo, o tipo de abordagem privilegiada que, de um modo geral, podemos caracteriza como holística. O que significa, do ponto de vista pedagógico que estrutura a obra, transmitir um vasto conjunto de princípios, noções e conceitos que ajudam os estudantes (e os não estudantes, diga-se de passagem) a empreender a análise dos filmes e do fenómeno cinematográfico em geral, apresentando o seu potencial artístico a partir de princípios gerais de forma e estilo, demonstrando esses princípios em acção nas obras cinematográficas escolhidas como exemplos. Na linguagem dos autores, isso significa colocar a ênfase nas “competências” técnicas e formais cujo domínio resulta numa mais ampla compreensão das obras fílmicas. Esta metodologia (e note-se que o método se revela a cada passo fundamental no desenrolar do processo produtor de sentido em Bordwell e Thompson) apoia-se constamente em análises desenvolvidas, precisas e consequentes de sequências, articulando de forma magistral concepções originais dos autores com sínteses sobre teorias existentes, discutidas nos seus desenvolvimentos mais recentes, referindo exaustivamente a bibliografia e outros recursos onde essas diferentes perspectivas podem ser constrastadas e/ou complementadas pelas perspectivas originais de Bordwell e Thompson. Acrescenta-se, ainda, uma poderosa e excelentemente reproduzida iconografia, retirada directamente dos filmes analisados, permitindo colocar no mesmo contexto analítico o texto e a realidade visual dos filmes, constituindo uma experiência que convoca a memória de um determinado filme, permitindo uma materialização imediata dos conceitos discutidos, ancorando imediatamente esses conceitos à sua contraparte visual. Assim, é tanto um objecto para ler como para ver. A este imenso manancial de informação e análises acrescenta-se um valioso acervo de instrumentos práticos: glossário de principais termos e conceitos analisados, um indíce triplo (noções, títulos, nomes), uma listagem actualizada e muito completa de páginas Internet consagradas ao cinema e uma bibliografia geral exaustiva que complementa as bibliografias selecionadas para cada tema tratado.
Finalmente, importa referir um traço importante da produção teórica de David Bordwell, presente em muitas páginas deste volume e que, de muitas maneiras, constitui uma das pedras-de-toque do pensamento do autor: a relevância dada à problemática da recepção, tratada sob o ponto de vista do cognitivismo. Diz o autor:
“A representação cinematográfica repousa sobre uma muito vasta quantidade de capacidades e de processos não convencionais, em relação aos quais as convenções são relativamente pouco numerosas e fáceis de apreender – na medida em que elas se apoiam justamente sobre esses processos ecologicamente constrangidos.” [p. 475]
Esta concepção religa todos os elementos constituintes da obra, elementos esses que temos vindo a referir, conduzindo a uma conclusão que nos parece coerente e que serviria em última análise para caracterizar sumariamente esta obra: em vez de considerar a questão da experiência cinematográfica como problema conceptual difícil e complexo de resolver, relevando de uma filosofia do espírito (deslocada no tipo de abordagem pragmática comum a Bordwell e Thompson), cria-se uma tensão dinâmica e estimulante entre a abordagem holística do fenómeno cinematográfico tal como a temos vindo a caracterizar e a abordagem cognitivista, fecunda e abrangente, tendendo para uma consolidação efectiva da experiência estética.

Arnaldo Mesquita

A Arte do cinema : uma introdução / David Bordwell, Kristin THompson ; tradução Roberta Gregoli. Campinas, Editora da Unicam ; São Paulo, Editora da USP, 2013, 765 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 62


[1] A título exemplificativo: La Passion de Jeanne d’Arc (1973), The Films Of Carl Th Dreyer (1981), Narration In Fiction Film (1985), Ozu And The Poetics Of Cinema (1988), Making Meaning : Inference And Rhetoric In The Interpretation of Cinema (1989), The Cinema of Eisenstein (1996), On The History Of Film Style (1997), Planet Hong Kong: Popular Cinema And The Art Of Entertainment (2000), Film History : An Introduction (2001), The McGraw-Hill Film Viewer’s Guide (2001). Figures Traced In Light (2005), The Way Hollywood Tells It: Story And Style In Modern Movies (2006), Poetics Of Cinema (2007).


Scroll to Top