Textos & Imagens 5



Em 2 de junho de 1928 surgia aquela que será até hoje provavelmente a mais popular revista portuguesa de cinema, e a de maior longevidade, como suplemento quinzenal do jornal O Século, propriedade da Sociedade Nacional de Tipografia. Dirigia-a Avelino de Almeida, jornalista, crítico literário, teatral e, claro, cinematográfico.
Cinéfilo inspira-se no modelo da primeira fase da revista francesa Mon Ciné, no que ao formato, páginas e tinta em que se imprime o título diz respeito. Tinha 32 páginas, e nela colaboraram, entre outros, Jorge Brum do Canto, António Lourenço, José da Natividade Gaspar, Fernando Fragoso, Mota da Costa, A. Simões Dias (que asseguraria a direção da revista após a morte de Avelino de Almeida em 1932), Augusto Fraga (que passaria a dirigir a revista a partir do nº 520), e também Beatriz Costa, que ao longo de 24 números ali publica páginas das suas memórias.
No seu editorial, Cinéfilo indicava que “a lacuna que procuramos preencher não é a das publicações artísticas ou técnicas, mas a de um órgão popular destinado especialmente aos que ignoram outras línguas a ainda aos que, familiarizados com elas, aguardavam uma revista de vulgarização, em cujas páginas ilustradas houvesse, a par da matéria geral, artigos e informações de interesse particular para os portugueses.” De facto, as suas secções profusamente ilustradas incluiriam reportagens, artigos de opinião, notas sobre os filmes estreados em Portugal, textos de e sobre atores e atrizes mas também divulgação de cinematografias estrangeiras, noções técnicas e compilações de citações de diversas personalidades sobre cinema e, claro, a habitual correspondência dos leitores. No que a assuntos portugueses se refere, Cinéfilo ocupava-se inclusivamente de obras antigas, com o intuito de “coligir notas dispersas para com elas formar nestas colunas um pequeno e modesto arquivo cinematográfico português.”. Mas não só: no contexto do debate público sobre a cinematografia portuguesa, Cinéfilo lança em dezembro de 1928 um inquérito sobre as salas de cinema em Portugal, apelando à participação dos seus leitores; a expansão e popularidade da revista verificam-se assim também nas respostas obtidas, que seriam publicadas ao longo de quase um ano e constituem uma importante fonte de informação para o estudo da exibição cinematográfica.
Decorridos cinco meses e doze números publicados, e para satisfazer os desejos dos seus leitores manifestos em inúmeras cartas procedentes de muitos pontos do país, a partir do número 13 a revista passa a ter periodicidade semanal, mantendo-se o mesmo formato, número de páginas, o mesmo preço (1$00, preço que se manteria inalterável ao longo dos seus anos de existência) e a mesma orientação.
Para além dos artigos, a revista incluía publicidade nas suas páginas, não só de distribuidoras e equipamentos cinematográficos mas também de bens e produtos do quotidiano, o que também demonstra a sua popularidade e implementação junto dos leitores como referência quotidiana.
A popularidade do jornal-revista (que lhe granjearia também rivalidades com outras publicações entretanto surgidas, originando alguns artigos de opinião de réplica, nomeadamente à revista Imagem dirigida por Chianca de Garcia) decorria também do investimento da empresa editora em diversas iniciativas de diversão e solidariedade social; Cinéfilo promovia matinés gratuitas de cinema educativo e recreativo em diferentes salas de Lisboa e arredores dedicadas a crianças, com a colaboração das casas distribuidoras, e em simultâneo desenvolvia obras de beneficência para as quais contava com a boa vontade dos seus leitores e amigos, gestos esses que eram destacados nas páginas da revista.
A partir do número 187 (19 de março de 1932), e mais uma vez em resposta a diversos pedidos de leitores da revista, inicia-se uma nova secção com quebra-cabeças cinéfilos (palavras cruzadas, retratos com mascarilhas, charadas, enigmas, anagramáticas, logogrifos…), sempre referentes “a pessoas e coisas cinematográficas”. Os leitores eram encorajados não só a enviar as respostas para figuração no quadro de honra da secção (que daria direito a brindes) mas também a criar e enviar os seus próprios quebra-cabeças para publicação na revista.
No número 578, de 15 de setembro de 1939, Cinéfilo suspende a sua publicação, “por motivo da difícil obtenção e do elevado preço dos principais artigos empregados na confecção de Cinéfilo, em especial o papel e o zinco polido.” A suspensão, indica-se, seria temporária, a manter-se apenas enquanto durasse o conflito europeu. “Desejando, no entanto, não privar os seus leitores habituais do conhecimento das actualidades mundiais de cinema, O Século resolveu iniciar, no semanário O Século Ilustrado, uma secção cinematográfica, onde serão largamente tratados os assuntos que se prendem com a Sétima Arte”.
Para além desta secção, nos anos seguintes (1939-1957) a revista continuaria a ser publicada, agora como separata de O Século com apenas 8 páginas quase exclusivamente constituídas por imagens e respetivas legendas, o que garantiria à editora a manutenção do título, permitindo-lhe a publicação de uma segunda série em 1973-1974. Mas essa é uma outra história, que merece um Destaque próprio.
 
Teresa Barreto Borges
 
Tipologia documental: publicação periódica
País: Portugal
Datas de publicação: 1928-1957 (I série)
Cota: PP 21
Nota: os números 579 a 612 apenas estão disponíveis em ficheiro (reprodução amavelmente cedida pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, entidade que detém o fundo da Empresa Pública Jornal O Século).
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