Textos & Imagens 49


Publicada pela primeira vez em 1976, a obra Le Signifiant Imaginaire – Psychanalise et Cinéma resulta da reunião de quatro textos cuja origem e cronologia se estabelece deste modo:
“Le Signifiant Imaginaire”, publicado na revista Communications (École des Hautes Études e Éditions du Seuil), número 23, 1975;
“Le Film de Fiction Et Son Spectateur, no mesmo número dessa revista;
“Histoire/Discours”, publicado em Langue, Discours, Société – Pour Émile Benveniste (Hommage Collectif), Éditions du Seuil, 1975 e
“Métaphore / Métonymie, Ou Le Réferent Imaginaire”, original publicado pela primeira vez neste volume.
Assim reunidos, estes textos constituem um ponto de convergência entre o cinema, a fenomenologia[1], o estruturalismo e a psicanálise. Para muitos leitores, a combinação fenomenologia/estruturalismo parecerá bizarra e mesmo completamente inconciliável. Alguns comentadores consideram mesmo totalmente incompatíveis a junção no mesmo plano conceptual de um modelo de pensamento que privilegia o sujeito e a intencionalidade da consciência (Edmond Husserl é o fundador dessa corrente) com uma teoria que, no limite, proclama a dissolução do sujeito em múltiplas camadas de discurso e condicionado por inúmeras estruturas de poder e micro-poder que o anulam (Michel Foucault). Esta perspetiva é desenvolvida num artigo publicado na revista 1895 (número 70, 2013)[2], da autoria de Dominique Château e Martin Lefebvre, intitulado “Chistian Metz et la Phénoménologie”, no qual afirmam:
“Bien au contraire, l’avènement du structuralisme dans les années 1960, s’est souvent manifesté par le rejet de tout “philosophie du sujet” et a ainsi participé, parfois explicitement, au déclin de la phénomémologie et de son empire sur la plupart des sciences humaines.” (p. 85).
Embora não nos opunhamos frontalmente a esta opinião, queremos no entanto introduzir algumas mediações que, de certo modo, suavizam a oposição radical que expressa, acrescentando uma visão alternativa de uma obra que desempenha um importante e extraordinariamente significativo papel na história da teoria cinematográfica.
Antes, convirá fornecer algumas informações sobre a figura de Christian Metz e a natureza da obra. Convirá também indicar que existe uma tradução portuguesa de excelente qualidade, da autoria de António Durão[3].
Na opinião de Francesco Casetti, “avec Metz nous sommes devant un nouveau paradigme de recherche et en grande partie devant une nouvelle génération de chercheurs. Aux théories ontologiques succédent les théories méthodologiques”[4]Tal significa que, por um lado, e praticamente sozinho, Metz foi capaz de revolucionar completamente o domínio da teoria cinematográfica, ao estabelecer um novo paradigma e que, por outro lado, foi capaz de convocar para esse domínio províncias epistemológicas que tradicionalmente lhe eram alheias. Estimamos que para esse resultado muito concorreu a sua estreita relação com o movimento filmológico iniciado por Gilbert Cohen-Séat e os artigos de semiologia do cinema da autoria de Roland Barthes, publicados na Revue Internationale de Filmologie.
Sob outra perspectiva, podemos e devemos considerar que alguém como Metz não poderia ficar indiferente à fenomenologia, exposta nos escritos de André Bazin e Jean Mitry, entre outros pensadores que colocaram no centro do seu aparato conceptual o enquadramento da psicologia fílmica.
A fenomenologia é assim a pedra-de-toque do pensamento de Metz durante grande parte do seu percurso. A obra Essais Sur la Signification Au Cinéma[5], de 1968, contém uma secção intitulada “Approches Phénoménologiques du Film” e outra secção que se intitula “Problèmes de Sémiologie Au Cinéma”. Por este exemplo podemos constatar que, por esta altura, ainda eram compatíveis as abordagens fenomenológica e semio-estruturalista. De resto, Metz abstém-se de modificar os textos que compõem a obra (aparecidos em diversas publicações entre 1965 e 1967), remetendo para notas de rodapé quaisquer mudanças parciais de orientação ou progressos surgidos por via dos debates em curso sobre o tema, o que significa que, no essencial, manteve as balizas teóricas que orientaram o seu pensamento. Aqui, a abordagem fenomenológica prende-se sobretudo com uma visão dos problemas da teoria cinematográfica cujo núcleo duro é constituído pela “impressão de realidade” que o expectador experimenta perante um filme e com os processos afectivos e perceptivos que tal impressão desencadeia, bem como ao modo fílmico da presença, largamente credível, que domina directamente a percepção, um fenómeno de grande consequência estética, mas cujos contornos são predominantemente psicológicos. 

Torna-se evidente que esta obra fecha um ciclo do pensamento de Metz e prepara o próximo, ou seja a introdução da psicanálise lacaniana. Eis outro motivo do “divórcio” a que atrás aludimos: são sobejamente conhecidas as sucessivas e violentas rupturas entre Jacques Lacan e Maurice Merleau-Ponty, o que agrava a incompatibilidade entre os planos conceptuais psicanalítico e fenomenológico (para além, evidentemente, da incompatibilidade entre o estruturalismo e a fenomenologia que também referimos).
No entanto, uma leitura atenta do ensaio que dá o título ao volume (sobretudo da secção intitulada “Acerca da Teoria Idealista do Cinema”) prova força remanescente da fenomenologia no pensamento de Metz. Na página 63 da edição portuguesa é-nos dito:
“Com efeito, é efectivamente verdade que o aparelho tópico do cinema se assemelha ao aparelho conceptual da fenomenologia, de modo que este pode servir para esclarecer aquele (em qualquer domínio, aliás, se tem que começar por uma fenomenologia do objecto que se quer compreender, pela descrição “receptiva” das suas aparências, só depois é que se pode começar a crítica; os psicanalistas, é necessário lembrá-lo, têm a sua própria “fenomenologia”. O “há” da fenomenologia propriamente dita (filosófica), como revelação ôntica que remete a um sujeito percepcionante (=“cogito perceptivo”), a um sujeito para o qual apenas pode haver qualquer coisa, mantém afinidades estreitas e precisas com a instauração do significante de cinema no Eu, tal como eu a tentei abordar, com o espectador refugiado em si mesmo como pura instância de percepção, estando todo o percebido do “outro lado”. Nesta medida, o cinema é efectivamente uma “arte fenomenológica”, como frequentemente se disse e como dizia o próprio Merleau-Ponty (…) Em conclusão, a fenomenologia pode contribuir para o conhecimento do cinema (e ela fê-lo) na medida em que considera que se assemelha a ele, mas o cinema e a fenomenologia, na sua comum ilusão de domínio perceptivo é que devem ser explicados pelas condições reais da sociedade e do homem.”
Este esclarecedor parágrafo constitui, quanto a nós, a súmula perfeita desta fase derradeira, conclusiva e extraordinariamente fecunda do pensamento de Metz. Nele se estabelece uma relação de complementaridade entre a psicanálise, o estruturalismo e a fenomenologia que contraria em parte a opinião daqueles que consideraram inconciliáveis os diversos campos epistemológicos convocados para um plano conceptual de compreensão plena do fenómeno cinematográfico. E revela também o carácter profundamente dialéctico do discurso de Metz que, não é demais sublinhá-lo, contribui decisivamente para um concepção fundamental do cinema: a de um medium cuja especificidade e diferença em relação às outras artes se materializa no poder que detém sobre o espectador, um poder que lhe advém do jogo dialéctico entre presença e ausência e ainda a capacidade de tornar visíveis muito mais elementos da realidade do que as suas contrapartes artísticas. Ao leitor caberá descobrir os argumentos que Metz utiliza para afirmar esse poder e essa singularidade.
Hoje injustamente semi-esquecida, a obra de Metz carece urgentemente de ser redescoberta, sobretudo numa altura em que os estudos sobre recepção ocupam um lugar cimeiro na produção teórica. Tais estudos, de resto, são variações, interpretações, prolongamentos, desenvolvimentos de temas que, in nuce, já tinham sido enunciados e pensados por Metz. Um autor que, reafirmamos, é um dos mais profundos e consequentes pensadores do cinema.

Arnaldo Mesquita

Le Signifiant imaginaire : psychanalyse et cinéma / par Christian Metz. Paris, Union Générale d’Édition, cop. 1977, 370 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 623

O Significante imaginário : psicanálise e cinema / Christian Metz ; tradução António Durão. Lisboa, Livros Horizonte, cop. 1980, 311 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 623


[1] A corrente fenomenológica reapareceu em força em França no pós-guerra e influenciou decisivamente o pensamento francês dos anos 50 e 60, sobretudo através dos escritos de Maurice Merleau-Ponty e Jean-Paul Sartre, entre outros. Para quem se interessar  pelo tema, remetemos para a obra La Phénoménologie En France, vários autores, Paris, Plon, 1985.
[2] Disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca.
[3] METZ, Christian, “O Significante Imaginário – Psicanálise e Cinema”, tradução de António Durão. Lisboa, Livros Horizonte, 1980. Disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca.
[4] CASETTI, Francesco, “Les Théories du Cinéma Depuis 1945”. Paris, Nathan, 1999, p. 109. Disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca.
[5] METZ, Christian, “Essais Sur la Signification Au Cinéma”. Paris, Éditions Klincksieck, 1968. Disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca.

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