Textos & Imagens 45



-Não, querido – diz César suavemente, com voz contida – Temos que ser objectivos e reconhecer que Eisenstein é genial. Por acaso o seu “Ivan o Terrível” não é genial? O baile de máscaras dos “pritschniki”. A cena da catedral!
-Tolices ! – exclama CH-123, desgostado, detendo-se um momento antes de levar a colher à boca – Tanta arte, que nem sequer há arte. Pimenta e canela em vez do pão de cada dia ! E logo a porca ideia política: justificar a tirania autocrática. Insultam a memória de três gerações de pensadores russos ! (…)
– Que outra versão teriam permitido?
-Qual permitido ? Então não fale você de génio ! Diga antes que é um engraxador que cumpriu uma encomenda amarga. Um génio nunca adapta a sua interpretação aos gostos dos tiranos !
-Mas ouça ! A arte não é o quê, mas o como!”

 
Esta “cena” desenrola-se no contexto narrativo – altamente dramatizado e antagónico – da obra “Um Dia na Vida de Ivan Desinovich” de Aleksandr Soljenitsine (Publicações Europa-América, 1970). Deixemos de lado a profunda injustiça e a perspectiva errónea no que se refere à situação de Sergei Eisenstein no quadro do regime estalinista. Com a devida distância, que apenas representa uma diferença de grau e de intensidade, Eisenstein integra uma extensa lista de artistas, intelectuais, escritores e pensadores perseguidos, silenciados (e alguns deles sumariamente executados) que inclui Ossip Mandelstam, Isaac babel, Kasimir Malevich e Vsevolod Meyerhold, para só citar os mais conhecidos e clamorosos.
Mas, para aquilo que aqui nos importa, é a declaração contida na última linha do diálogo que se torna extraordinariamente significativa: o que é relevante na arte não é o quê, mas o como. Por isso, e no que concretamente diz respeito a Eisenstein e à elucidação do seu processo criativo (o como), esta obra se torna fulcral, já que se constitui como uma síntese perfeita desse processo. Paradoxalmente, trata-se de um projecto inacabado, de um filme que não chegou a existir (pelo menos na forma como o seu criador o concebeu), um objecto idelizado mais do que realizado. Falamos da primeira edição em língua inglesa do argumento do filme “Que Viva México!”, publicado em Londres pela Vision Press no ano de 1951, com prefácio de Ernest Lindgren, à época Sub-director do British Film Institute e curador da National Film Library.
Assim, o argumento aqui publicado, que se faz acompanhar de 36 belíssimas fotografias de cena, é o mais completo que se conhece e da sua leitura resulta uma compreensão da vastidão, ambição e dimensão épica do projecto. Dele disse Marie Seton em 1948: “O filme “Que Viva México!”, tal como Eisenstein o planeou e realizou, foi o mais gigantesco projectou que alguém tentou realizar do medium cinematográfico. O filme contaria a história de uma civilização – a do México – desde os seus tempos primevos antes do Novo Mundo ter sido descoberto até à altura em que Eisenstein estava a trabalhar no México em 1931. Quando em diversas ocasiões falou comigo em Moscovo sobre o filme, referiu-se à obra como uma “história viva” do México e do povo indígena mexicano! (Seton é citada por Lindgren).
A “Introdução” é uma longa e brilhante dissertação política e ética sobre a liberdade de expressão e o modo como a supressão desse direito fundamental afecta profunda e tragicamente os criadores; debruçando-se sobre o filme e o seu autor, ambos mortos, Lindgren manifesta uma legítima e fundada preocupação com um processo histórico que, esmagando o cineasta Eisenstein, ameaça esmagar a Humanidade com ele. Por outro lado, narra com minúcia a história desse grandioso naufrágio, detendo-se em alguns contornos menos conhecidos. Em síntese: o facto de Upton Sinclair, o escritor norte-americano que foi o principal impulsionador e financiador do projecto ter abandonado o mesmo, por razões nunca claramente esclarecidas e o modo como o regime soviético exerceu uma insuportável pressão sobre o cineasta, exigindo-lhe o retorno súbito à URSS, sob pena de ser declarado traidor à Pátria e arcar com as consequências. Esta valiosa introdução ao argumento e às circunstâncias da produção e realização do filme centra-se mais nas intenções declaradas de Eisenstein e sobre as vicissitudes do projecto e menos sobre o material do filme em si mesmo. Ou seja, mesmo que se foque na narrativa tal como ela se desenrola no argumento preparado por Eisenstein para publicação, não chega a interrogar o conteúdo do filme, nem a verdadeira intenção do criador. É, estamos em crer, uma escolha deliberada que remete para a consciência de quem lê e para o facto de o argumento publicado, para além de permitir uma visão dos métodos e do projecto estético de Sergei Eisenstein, permitir ainda compreender o modo como o filme (ainda que incompleto) se situa quer no contexto cultural do país de origem do cineasta, quer no contexto cultural e etnográfico do país de acolhimento. E coloca uma questão que nos parece fulcral: como fazer entrar um filme inacabado na narração coerente sobre a carreira e a obra de um autor? Por outro lado, é legítimo perguntar pela lógica que valida a tentativa de reconstruir um objecto cinematográfico inconcluso a partir de uma textualidade que fica sempre aquém desse “ainda não” que seria o filme completo.
Seja como for, o objecto “Que Viva México!” é visível na estrutura da narrativa e na qualidade formal da imagem querida por Eisenstein. Como, para o cineasta, a estética e a política eram inseparáveis, o argumento coloca em evidência que o meio cinematográfico, pela simples natureza dos seus elementos estruturantes (montagem, composição do quadro, narrativa, etc.), é em si mesmo inerentemente político. Lembremo-nos, por exemplo, que a tese principal subjacente à teoria da montagem – e da arte em geral – desenvolvida por Eisenstein é constituída por choques e conflitos. É impossível não pensar na teoria marxista da luta de classes e da sua superação.
Importa mencionar que Lindgren acentua ainda a influência dos grandes artistas mexicanos que Eisenstein encontrou durante o seu périplo – José Clemente Orozco, David Alfaro Siqueros, Diego Rivera, Frida Kahlo, Fernando Gamboa -, o que faz pensar no modo como Eisenstein alterou substancialmente o seu estilo pessoal, de forma a adequar a imagética de cada um dos quatro episódios centrais do filme (dedicados a outros tantos artistas plásticos mexicanos) ao estilo visual desses artistas.
Finalmente, aquilo que este argumento manifesta (e todos aqueles que viram o filme compreenderão esta afirmação) é que possivelmente Eisenstein criou a arte cinematográfica mexicana para um público internacional. O que é certo é que a influência prolongada desta obra em suspenso se constitui como um testamento a favor do poder e da viabilidade do intercâmbio cultural e da realização dialógica.
 
Arnaldo Mesquita
 
Que viva Mexico! / by S. M. Eisenstein,with an introduction by Ernest Lindgren. London, Vision Press, 1951, 89 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 79 QUE VIVA MEXICO!

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