Textos & Imagens 44



Organizado nos dias 16, 17 e 18 de Novembro de 2001, o seminário “Cinema e Pintura” decorreu no Convento da Arrábida com a presença dos dois organizadores – João Bénard da Costa e Jean Louis Schefer, alunos dos cursos de Comunicação Social e História da Arte da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, historiadores de arte, personalidades do Cinema e programadores da Cinemateca. Ao seminário sucederam-se, entre Novembro de 2001 e Setembro de 2002, dez mini-ciclos, inseridos na programação habitual da casa.
Este evento, fortemente marcado pelas personalidades de Bénard da Costa e de Schefer, resultou de um projecto pessoal e de uma forte vontade do primeiro, vontade essa claramente expressa no texto intitulado “O Quadro Desaparecido ou As Visões Ancestrais”:
“Não me adianta, nem vos adianta, que me busque razões. A razão mais simples é que nenhum de nós estaria aqui se eu não o quisesse. E qui-lo porque há muitos anos, sonho com um ciclo “Cinema e Pintura”, sem me deixar convencer com as formas convencionais de o abordar.”
Quando João Bénard da Costa começou a pensar e a escrever sobre cinema, há já muito que a questão das relações do cinema com as outras artes se tinha instalado no universo da teoria cinematográfica; os grandes pensadores franceses dos anos 20 (Deluc, Dulac, Epstein, entre outros) tinham debatido longamente essa relação com um propósito bem definido: procurar a caução intelectual e a legitimação cultural do cinema, elevando-o da sua condição  de simples divertimento de feira ao estatuto das outras formas consagradas de expressão artística. Esse debate não teve nunca um término e, para aqueles que estão familiarizados com a escrita de João Bénard da Costa, não passou despercebido que, mesmo de uma forma implícita, embora a maior das vezes seja bem explícita, não deixou nunca de procurar as afinidades, similitudes, alusões, o trânsito e a tensão entre o cinema e as outras artes, particularmente entre o cinema e a pintura, ou entre o cinema e a ópera. Aliás, isso mesmo é detectável em crónicas e textos do autor sobre outros temas que não o cinema (cf. os cinco volumes “Crónicas: Imagens Proféticas e Outras” editados pela Assírio & Alvim), onde o cinema está sempre presente como o infinitamente pensável, o familiarmente estranho e o permanentemente habitável.
Seja como for, o propósito desse evento é claramente definido por JBC no texto introdutório à obra que agora nos ocupa. Diz ele:
“Durante esses três dias discutimos cinema e pintura. Que relações existem – ou podem existir entre o cinema, arte do tempo, e a pintura, arte do espaço. Haverá um espaço cinematográfico, um campo cinematográfico, que, existindo apenas em função do tempo, possa ser concebível sem ele? Haverá um tempo na pintura que, existindo em função do espaço, possa ser concebível fora dele?”
Segundo o autor, a sua parceria com Jean Louis Schefer resultou numa abordagem nova dessa problemática  relação. Cabe-nos, assim, procurar determinar neste conjunto de textos, servidos por uma iconografia riquíssima e fecunda (quer cinematográfica, quer pictórica) em que consiste a “novidade” dessa abordagem.
Como se compreende, o tema é abordável até ao infinito e pode ser apreendido através de múltiplas entradas temáticas e estéticas (percorrer o índice da obra é uma boa forma de realizar essa compreensão). No entanto, e apesar da proclamada vontade de uma nova abordagem, o conjunto dos autores aqui incluídos, opta por análises que se situam numa perspectiva estética, no sentido essencialista do termo. Assinalamos o facto de uma tal determinação marcar o regresso da Estética, disciplina filosófica por excelência, como forma de identificar e compreender os factos estéticos e os seus objectos, tal como eles se nos apresentam. Esta veia metafísica é também visível nas escolhas dos pintores (encarados, também eles, frequentemente como “autores) e cineastas (veja-se, por exemplo, o texto “As Mãos de Lang” de Jean-Claude Biette ou “A Diferença  Pintura/Cinema” de Stephen Bann, bem como numa espécie de reverência pela Arte que Eric Rohmer já tinha proclamado em “Le Celluloïd Et le Marbre”, conferindo ao cinema o poder de elucidação metafísica que antes estava conferido à pintura, um propósito que Bénard da Costa  já tinha sublinhado ao inserir no texto “Eric Rohmer e os Cahiers du Cinéma” (no catálogo do ciclo “Eric Rohmer”) a citação que consta da nota prévia ao ensaio, publicado na revista sob a forma de série:
“Pintores, músicos, romancistas e poetas  nunca tiveram qualquer escrúpulo  em fazer recair sobre o cinema um juízo que, conforme os casos, foi apressado ou prudente, entusiasta ou severo. Trocando os papéis, é como amador de cinema que Eric Rohmer se propõe examinar, neste artigo, as outras artes. A frequentação das salas escuras embotou a nossa sensibilidade para outras formas de expressão? Ou, pelo contrário, enriqueceu-a com novas exigências? Pode-se admirar, ao mesmo tempo e pelas mesmas razões, Picasso e Jean Renoir? As respostas que começa a dar a partir de hoje, não têm a pretensão de ser definitivas ou mesmo imparciais. Através deste confronto, e para lá dele, é a própria natureza do cinema, visto tantas vezes sob teses enganadoras, que importa circunscrever melhor…”
Assim, procura-se situar o cinema num sistema vasto de sentido e ir mais além: procurar saber em que constelação situar esse trânsito e essa tensão entre a arte pictorial e o cinema, uma questão que fica em aberto, justamente porque não há, nem poderia haver respostas definitivas. O que há, outrossim, é a abertura de uma clareira (um horizonte de inteligibilidade) a partir do qual se pode começar a vislumbrar os contornos desse enigma. Os trabalhos de pesquisa de fontes, de influência e de passagem de uma arte a outra – passagens estéticas, sociais, tecnológicas e ideológicas – culminam nesta obra, um empreendimento destinado a mudar a história da arte e a história do cinema. Esta afirmação hiperbólica, de hiperbólico nada tem; com ela assistimos ao regresso e triunfo da Estética, essa disciplina tão vilipendiada e rejeitada (veja-se, a título de exemplo, a obra “Adieu à L’Esthétique” de Jean-Marie Schaeffer, publicada pela PUF na colecção “Collège de Philosophie”), uma Estética que já nada tem a ver com a “crítica do gosto”, mas dedicada a reafirmar a modernidade estética, um modo de reflexão, um domínio teórico autónomo.
Eis, por fim, a grande “novidade” desta obra, tal como João Bénard da Costa a enuncia no texto que referimos.
 
Arnaldo Mesquita
 
Cinema e pintura / comissariado por Jean Louis Schefer, João Bénard da Costa; dir. artística Rita Azevedo Gomes. Lisboa, Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, 2005
Tipologia documental: livro
Cota: 61 [75]

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