Textos & Imagens 42



A formação de uma coleção, seja ela particular ou pública, grande ou pequena, deve-se a uma mistura de vontade e acaso. Graças a um feliz acaso, a Cinemateca Portuguesa recebeu, há alguns anos, uma preciosa e bela coleção de fotogramas ampliados de filmes dos operadores de câmara dos irmãos Lumière. Estas ampliações, com cerca de dez centímetros de largura (quase o triplo da dimensão de um fotograma de película de 35 mm), estavam cuidadosamente guardadas em pequenas pochetes de papel vegetal e devidamente identificadas. Para dar a ver estes extraordinários momentos dos primórdios do cinema, dezoito destes fotogramas, tirados de filmes feitos em diversas cidades do mundo, foram incluídos num caderno de imagens do catálogo publicado pela Cinemateca por ocasião do ciclo “Cinema e Arquitetura”. Uma destas imagens mostra os irmãos Auguste e Louis Lumière à porta de um cinema de Londres em cuja fachada é anunciado que os filmes do Cinematógrafo Lumière ali eram apresentados “every evening”.

Ainda hoje, quase cento e vinte cinco anos depois da primeira sessão pública do Cinématographe Lumière, muitos espectadores qualificados definem estes filmes como “primitivos”, como se fossem meros rabiscos de cinema, grunhidos anteriores à palavra. É impossível estar mais equivocado. Como disse Henri Langlois no documentário LUMIÈRE (1965), de Eric Rohmer, “nos Lumière, não há acaso, há saber”.  André S. Labarthe demonstrou brilhantemente, num artigo de 1995, que no primeiro filme a ter sido visto numa sessão pública no mundo, a famosa SAÍDA DA FÁBRICA LUMIÈRE EM LYON, os Lumière já dominam totalmente os dois elementos essenciais do cinema que são o espaço e o tempo: a câmara está na melhor posição possível para enquadrar a fábrica, os operários e as operárias, ao passo que estes saem pelo portão ao ritmo necessário para que a ação chegue ao fim quando se esgotarem os cerca de 40 segundos de duração do rolo de película. Todos os dez filmes da primeira sessão de 28 de Dezembro de 1895 exemplificam este domínio absoluto sobre o espaço e o tempo, como um espectador atento poderá observar. 

Em outros destes primeiríssimos filmes, como também demonstrou Labarthe, os Lumière souberam incorporar um terceiro elemento essencial, o acaso, a presença de elementos que não estavam previstos à partida. E, é claro, já na SAÍDA DA FÁBRICA…, os Lumière exemplificam o facto de que quase todo o cinema é encenado: os operários estão endomingados e não olham para a câmara (seguindo, evidentemente, instruções dos Lumière), representam o seu próprio ser. Os filmes dos irmãos Lumière (há justiça poética no facto do nome dos irmãos associados à invenção do cinema significar luz) só são primitivos no sentido de primevos, relativos aos primeiros tempos. As ficções elaboradas a partir dos primeiros anos do século XX e durante cerca de um decénio (episódios bíblicos ou da história antiga, comédias, melodramas), antes da codificação narrativa das longas-metragens, é que merecem o epíteto de primitivos no sentido de toscos, rudimentares, com os seus espaços atabalhoados e a sua duração mal calculada. Por detrás de cada breve filme Lumière está, em estado reduzido, aquilo que se chamou e ainda se chama o cinema. Um fotograma ampliado e reproduzido num livro não é uma fotografia: são 24 avos de segundo de cinema isolados (16 avos no caso dos filmes dos Lumière), uma fração de segundo de uma imagem em movimento, imobilizada diante daquele que a contempla. E em cada um destes fotogramas está, em estado reduzido, a totalidade de um breve filme do início daquilo a que Jean-Luc Godard chamou “les années Lumière”, os anos-luz dos irmãos Lumière. Damos como exemplo esta magnífica imagem de um fotograma em que vemos Fulton Street, em Nova Iorque, nos anos finais do século XIX.
 
Antonio Rodrigues
Programador, Departamento de Divulgação e Exposição Permanente

Tipologia documental: provas fotográficas
Dimensões: 18×24 cm
Cota: P1

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