Textos & Imagens 4



Uma das qualidades da fotografia – sobretudo os retratos – é o poder de nos fazer viajar no tempo e deixar sem palavras. Esta, no entanto, fala-nos com um discurso eloquente que aqui se tenta resumir.
O ano: 1929; o local: Berlim, possivelmente nos estúdios da UFA. O retratado é o realizador alemão, nascido em Viena, Fritz Lang. A dedicatória, escrita em francês, língua que dominava completamente, é ao realizador português J. Leitão de Barros. A história que conta testemunha a passagem por aqueles estúdios do português, onde o alemão era a vedeta principal. Nesse ano, ambos estreariam filmes: Frau im Mond (A Mulher na Lua), para o primeiro e Nazareth, Praia de Pescadores e Zona de Turismo para o segundo.
De Fritz Lang contam-se inúmeras fotos, em todas as fases da sua vida, pessoal e profissional, com passagens por Berlim, Paris, Hollywood, e novamente Berlim. Descrito pelos seus contemporâneos germânicos como figura colérica, exigente, temperamental e (também) sádica, a sua vaidade – aqui demonstrada no chapéu elegante, cachecol e indispensável monóculo, era atribuída à sua origem vienense. A sua relação com Portugal ficou registada na amável dedicatória e na pouco frequente escolha do retrato denotando uma forte personalidade, vista pelo seu melhor ângulo.
Leitão de Barros estava de visita aos estúdios europeus: franceses, italianos, austríacos, alemães e talvez checos, acompanhado por António de Lopes Ribeiro, numa missão do Instituto de Alta Cultura com o objetivo de estudar a possibilidade de criar em Portugal uma estrutura profissional de cinema (que se concretizaria mais tarde com a criação da Tobis Klangfilm – Companhia Portuguesa de Filmes Sonoros). Este último visitaria a União Soviética, enquanto Leitão de Barros permaneceu em Berlim, tendo durante essa estada entrevistado Fritz Lang para o Notícias Ilustrado, de que era editor. 
Segundo Afonso Cortez Pinto, na tese de doutoramento sobre Leitão de Barros que apresentou em 2015, nessa entrevista Fritz Lang mostra-se interessado em filmar em Portugal e teria mesmo elaborado um dossier sobre a costa marítima, as habitações e indumentária dos seus habitantes. Tal intenção é, de resto, acentuada pela imagem da capa do nº 47 de Notícias Ilustrado, em que é publicada a primeira parte da entrevista, igualmente dedicada a Leitão de Barros (e curiosamente, não fora a diferença no texto da dedicatória, igual àquela que aqui destacamos), onde se pode ler “Cher M. de Barros, j’ai vraiment l’intention de tourner un de mes films prochains dans votre patrie, que j’aime surtout de vos racontes”.
A não concretização dos projetos portugueses de Lang poderá dever-se a várias circunstâncias, possivelmente ligadas à realização dos projetos alemães já esboçados, e ao clima crescente de instabilidade da propaganda nacional-socialista que, mais tarde, seria responsável por uma viragem decisiva na sua vida e obra que o levaria a deixar a Alemanha.
No entanto, esse aperto de mãos entre “colegas” chegou até nós e, como se disse, não podia ser mais eloquente. “À M. J. Leitão de Barros, avec mes sentiments les plus amicales”, lê-se na fotografia conservada e em exposição na Cinemateca por amável depósito de Manuel Mantero, neto do cineasta português.

Joaquim Vacondeus

Tipologia documental: prova fotográfica
Dimensões: 17×23 cm; emoldurada

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