Textos & Imagens 39



DA POLITIQUE DES AUTEURS À AUTEUR THEORY: CENAS DA CRÍTICA DE CINEMA EM 1963
1.
Foi então em 1963 que se disputou o clamoroso combate em 3 rounds entre Andrew Sarris, o cardinal de Manhattan, e Pauline Kael, trovão de Oakland. Recordado à distância de meio-século, embora salgado por alguns destemperos, é pertinente reconhecer que influenciou e inspirou largamente a posteridade, conquanto de forma impensada pelos contendores – estima-se hoje como pírrica a vitória que algum dos partidos houvesse reclamado. De somenos não será ter demarcado as extremas em que a futura crítica cinematográfica se haveria de precingir: Sarris apascentando os filmes no redil do cinema (assim graduado como predicamento aristotélico), Kael deixando-os tresmalhar à rédea-solta na campina da especulação. Mas sobrelevante nesta refrega acirrada e aguda foi o advento um fenómeno transcendente na exacta medida em que a memória o distorceu: a consubstanciação de uma auteur theory – termo “nova-iorquino” de híbrida etimologia anglo-francesa – nascida já artilhada, como Minerva, no crânio da politique des auteurs, que dela se apropriou como sua, tal qual as lendas impressas em vez dos factos.
À semelhança da maior parte das histórias também esta teve prelúdio noutro lugar e noutra história. O caldo primordial donde evoluiu foi uma peça ensaísticade André Bazin, que se valeu do arbítrio de editor para paginar as suas 10 laudas à cabeça da revista. Pronunciados os protestos de solidariedade com quem partilhava “as estimas, se não mesmo as paixões” e depois de se persignar pela “verdade crítica essencial” da politique des auteurs, Bazin intenta mitigar o jacobinismo eivado nomeadamente por Rohmer e Truffaut, alvitrando que “l’oeuvre dépasse son auteur” pois: “il est fâcheux de louer à tort une oeuvre qui ne le mérite pas, mais le risque est moins néfaste que de rejeter un film estimable parce que son réalisateur n’a jusqu’à présent rien fait de bon.” Deixaria ainda um alerta: “la politique des auteurs est […] la plus périlleuse” pelo que urge uma teoria, sob o risco de redundar num “culto estético da personalidade.”
Era uma estrada de tijolos amarelos que se estendia rumo à promessa de plenitude da crítica cinematográfica. Mas justamente por la politique carecer de uma pilastra teórica ou ideológica, avalizou-se a tentativa de calibragem e recomendação de Bazin no cômputo dos vendavais que saturavam a atmosfera crítica dos “Cahiers”, sem sequelas ou ilações de maior para além do questionamento em si. Bem mais tarde se haveria de cunhar o aforismo do “efeito borboleta”.
Demoraria 5 anos esta baixa-pressão a cruzar o Atlântico e abater-se na costa americana. Só em 1962 Andrew Sarris achou conveniente fazer do ensaio de André Bazin bíblia sobre que jurar a sua profissão de fé no “credo” – palavra dele – autorista – substantivação que ele nunca emprega, porventura intencionalmente, mas incontornável – em resposta à dúvida de um exibidor que lhe perguntara se determinado filme “era mesmo bom ou apenas bom segundo a teoria de autor”.
 
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Tipologia documental: publicações periódicas
Cotas: PP 3 (Film Culture), PP 39 (Film Quarterly)
Nível de descrição: indexação artigo a artigo

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