Textos & Imagens 38



Tendo como subtítulo “Revue de Théorie De L’Image Et Du Son – A Journal of Theory On Image And Sound”, a revista “Iris” começou a ser publicada em 1983 e a sua génese deveu-se a um grupo de autores consagrados, responsáveis pelos critérios editoriais e pela produção dos textos, contando com o apoio das Éditions Analeph, vindo mais tarde a apoiar-se nas Éditions Méridiens Klincksieck. Com o correr do tempo, constitui-se um Institut Pour la Recherche Sur L’Image Et Le Son que se responsabilizou pela edição da revista, tendo encontrado um importante parceiro nos Estados Unidos, na figura do Institute for Cinema And Culture da Universidade de Iowa. Como se depreende do extenso subtítulo da publicação, estava vocacionada para a divulgação de textos oriundos do mundo francófono e do universo anglo-saxónico, contando no seu comité diretivo e no comité editorial com alguns dos nomes mais importantes da produção teórica dos dois lados do Atlântico.
Num país – a França – saturado com publicações de cinema, algumas delas já muito antigas, estabelecidas e sumamente estimáveis, como se propôs a “Iris” fazer a diferença e conquistar um lugar nesse universo onde pontificavam publicações como os “Cahiers du Cinema”, “Positif”, “Études Cinématographiques”, “Cinématographe”, para só citar algumas das mais importantes? Desde logo, pela delimitação concreta do seu domínio de trabalho; logo em 1983 já considerava que o cinema não poderia ser abordado independentemente da produção de imagens e sons. Ou seja, antes de todas as outras conseguiu percecionar corretamente o espírito do tempo e as tendências que na altura mal se começavam a desenhar e que iriam desembocar na “atual” revolução tecnológica; diversificação de suportes, de redes de distribuição, de modos de consumo e de fruição. Em suma, os pais fundadores da revista (Jacques Aumont, Marc Vernet, Jean-Paul Simon) pensaram um modelo em que o cinema (incluindo as suas formas-fetiche – star system, géneros, prazer do grande ecrã, cinefilia em geral) partilhava as páginas com outras formas de representação e de espetáculo fundadas sobre o som e a imagem. Nitidamente orientada para o campo epistémico genericamente designado como “teoria do cinema”, para perspetivas históricas problematizantes e para uma inscrição assumida na vasta panóplia das ciências sociais, é uma publicação fortemente comprometida com uma atitude de reflexão e de distanciação crítica em relação aos temas que trata. Reflexão e distanciamento crítico que são próprios da instituição universitária, numa época em que a “teoria” já não se produzia a partir do ofício artesanal do “crítico de cinema”, mas de um conjunto alargado de saberes, competências e utensílios típica e quase exclusivamente académicos. Nesse sentido, e embora acolhesse textos predominantemente oriundos desse meio, a revista veio a alargar a sua área privilegiada de recolha a gabinetes de estudos e instituições e organismos diversos centrados no tipo de questões que se propôs tratar. Sem confundir atualidade com contemporaneidade, e esta com intemporalidade, a publicação distingue-se, nunca é de mais acentuá-lo, pelo internacionalismo das suas propostas; sobretudo nos anos 70, o trânsito deste tipo de abordagem teorética do cinema processou-se essencialmente pela exportação da reflexão francesa para o universo anglo-saxónico; a revista “Iris” propôs-se, como é patente, atender à multidireccionalidade das trocas, negando a existência de um pólo dominante. Este modo de atuação compagina-se com a multiplicação de colóquios, debates, seminários internacionais, institucionais ou não, que por esses anos 80 procuraram romper as barreiras e tornar verdadeiramente global e planetária quer a produção teórica, quer a sua discussão. Isto inclui, obviamente, a trajetória de investigadores académicos e extra-académicos, muitos dos quais estão representados nas páginas da revista. E, não menos importante, a insistência na publicação de textos em francês e inglês, as duas línguas francas da investigação na área do cinema e dos seus correlatos, o que parece marcar decisivamente um reforço institucional dos estudos sobre a imagem e o som.
O primeiro número da revista, subtitulado “Nouveaux objects, nouvelles méthodes” explora e delimita o campo onde a revista pretende afirmar-se. Os adjetivos “novos” e “novas” parecem indicar menos o fetichismo com a novidade e mais a atenção prestada ao caráter de viragem, de transformação do período em que a revista iniciou a sua publicação e assinala também o privilégio concedido às pesquisas em curso. Assim, o primeiríssimo artigo é assinado pelo incontornável David Bordwell e intitula-se “Lowering The Stakes : Prospects For a Historical Poetics of Cinema”. Nele, o autor considera necessário e urgente que, após um decénio de estudos cinematográficos em que numerosas disciplinas se viram regularmente convocadas a propósito do cinema, definir um quadro teórico mais reduzido na sua amplitude, portanto mais eficaz. O quadro assim sugerido é derivado da teoria da literatura fundado pelos ditos Formalistas russos. Bordwell procura demonstrar que esse quadro permite entre outros tratar os problemas da poética cinematográfica, bem como a questão do espectador. Estava dado o mote para aquele que seria o programa e o eixo estruturante da publicação: um quadro concetual que permitia tratar os problemas da teoria cinematográfica – e talvez também o de algumas perspetivas históricas – a partir de um consenso resultante da integração de outros e diversos modelos teóricos.
Para além deste primeiro número, essencial para a compreensão do alcance e da metodologia da revista, destacamos o nº 28, outono de 1999, um número que, digamos assim, a meio-caminho da vida útil da publicação, faz um balanço da teoria do cinema de autor e do estatuto do autor, propondo uma reflexão crítica e alargada num período em que tudo aquilo que eram prenúncios e tendências conjeturais no primeiro número se tinham já transformado em realidades efetivas num período de dezasseis anos. Esta revisão crítica e atualização poderia ser sintetizada por um dos mais pertinentes textos aqui coligidos: “L’auteurisme en question. Auteur, style, thématique : le trio infernal”, de Denis Lévy, no qual o autor escalpeliza alguns dos conceitos fixos, estabelecidos desde sempre e aparentemente inamovíveis, que fazem parte da doxa e cuja validade contemporânea questiona. De facto, a política de autores, enquanto parte de uma argumentação desenvolvida pelos “Cahiers du Cinéma” (ver textos nº 1 e nº 12 desta série “Textos & Imagens”) no decurso dos anos 50 é, a vários títulos, uma das etapas cruciais no desenvolvimento da teoria cinematográfica, tendo o “autorismo” generalizado vindo a ser integrado em todos os discursos sobre cinema, com inocência e candura pelos críticos e com intencionalidade pelos teóricos (e muito haveria a dizer sobre o uso e o abuso da noção de autorismo, questão que aqui não nos ocupa, desobrigando-nos, por exemplo, de analisar a confusão entre essa noção e a temática da “visão do mundo” como conteúdo integrante do dito autorismo, um conteúdo que noutras paragens e noutros contextos se chamou “metafísica”). Pois o que Denis Lévy faz, com elegância e sobriedade, é questionar os conceitos basilares da política e da teoria de autor, conceitos que, de tão usados, passaram a integrar a linguagem natural e uma dogmática que impregna totalmente (por vezes, fatidicamente) os modelos pelos quais se rege o pensamento sobre o cinema. As diversas epistemes aí estão para serem interrogadas, questionadas e, em última análise, postas em causa.
De resto, a dificuldade está na escolha: cada um dos escassos números publicados (quase todos monotemáticos e integrando o que de melhor se escreveu sobre os temas em análise) oferece certamente amplos motivos de reflexão e de novas aprendizagens para todos aqueles que se interessam pelo fenómeno cinematográfico e as suas numerosas e multifacetadas vertentes.
 
Arnaldo Mesquita
 
Tipologia documental: publicação periódica
Cota: PP 561
Nível de descrição: indexação artigo a artigo

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