Textos & Imagens 35



Na tipologia documental a que na Cinemateca designamos de “press-sheets” (e que conta atualmente com cerca de 12.000 documentos em papel e cerca de 1.100 documentos em formato digital das mais variadas formas, origens geográficas, épocas e estilos) englobam-se, na realidade, diversos tipos de documentos que, se comungam do mesmo objetivo e função geral de promoção e marketing dos filmes, diferem entre si pelos discursos próprios veiculados. Especificando essa diversidade, encontram-se aqui organizados tanto os folhetos “que o assessor de imprensa de um produtor, um distribuidor ou um autor distribui aos jornalistas para lhes fornecer informações sobre o enredo e a produção do filme” (a citação é de Giovanni Grazzini, na sua definição de “press-books”) como também as brochuras elaboradas pelos produtores para a promoção dos novos filmes junto dos distribuidores e/ou exibidores, e ainda – embora com menor presença na coleção – os álbuns-recordações de um filme (não confundir com os programas de salas, que ostentam o local e evento específicos).
Se é pois verdade que todas servem o propósito de promoção e marketing, a linguagem utilizada é evidentemente distinta, desde logo porque na primeira e segunda categorias encontramos como destinatários um público específico e informado (críticos de cinema e distribuidores/exibidores, respetivamente) e na terceira o público cinéfilo em geral. Para estes, encontramos então os referidos álbuns-recordações de filmes, profusamente ilustrados (note-se, a título de exemplo, os livros editados pela firma italiana Lux Film) e com informações sobre a obra, os intérpretes e a equipa de produção.
A mesma informação textual é incluída nos dossiers distribuídos à imprensa especializada, a que se junta ainda informação detalhada sobre a produção do filme que, como o indica Bryony Dixon, frequentemente “não é obtenível noutras fontes”[i]. Apesar de também nestes dossiers se poderem encontrar diversas manifestações da criatividade e engenho empregues para vender o filme (os críticos em exercício no início dos anos 90 lembrar-se-ão certamente da mala de cartão que receberam com o dossier de imprensa do filme Home Alone / Sozinho em Casa, de Chris Columbus), é no conjunto de brochuras destinadas a distribuidores e/ou exibidores que se encontram os exemplos mais expressivos desta ferramenta de comunicação.
Nestes manuais de campanha publicitária, cuja invenção é atribuída a Edward L. Berways (sobrinho de Sigmund Freud e um dos pioneiros da publicidade e das relações públicas) com a criação em 1917 da campanha publicitária para o filme Cleopatra, e que serviam de orientação sobre a forma de “vender” localmente o filme, incluíam-se, para além da apresentação do filme, do elenco e da equipa técnica, exemplos de slogans publicitários, imagens dos materiais gráficos disponíveis e mesmo, por vezes, um encarte com os anúncios para os jornais com indicação das especificações de composição tipográfica necessárias.
Para esta série de “textos & imagens” em que procuramos objetivar o tema abordado, foi desta última categoria que selecionámos um exemplar: o manual de campanha publicitária de Rope / A Corda (Alfred Hitchcock, 1948, filme aqui exibido há dois dias), na sua versão francesa (do acervo da Cinemateca consta também o manual distribuído em Espanha, com diferente grafismo) e que pode ser visualizado integralmente aqui.
Neste manual pré-política dos autores, o realizador que tantas “cameo appearances” fez nos seus próprios filmes (neste em particular, surge logo a seguir ao genérico inicial e à menção “Directed by Alfred Hitchcock” caminhando no passeio, jornal na mão, ao lado de uma mulher), não tem direito a imagem; a sua “entrada” surge a seguir às páginas dedicadas à apresentação dos atores (“as vedetas”) e à sinopse do filme, em meia página partilhada com a ficha técnica (sucinta), os slogans propostos e a chamada de atenção sobre os materiais publicitários disponíveis. “À votre service”, assim começa esse discurso específico, que termina com “Une bonne publicité à faveur d’un bon film paye toujours!”. E na página seguinte, que inclui também os dois modelos de cartazes disponíveis, são elencadas as vantagens dos anúncios a enviar para a imprensa em relação ao recurso a textos compostos para o mesmo efeito.
Escolhemos Rope / A Corda, mas poderíamos ter escolhido outro de entre a vasta e extraordinária coleção de “press-sheets”. E porque muitos outros existem, terminamos lançando um desafio ao seu estudo: se atrás referimos a natureza funcional dos “press-sheets”, recordamos agora o possível alcance destes documentos que é operado com a sua extração desse contexto utilitário original, isto é, com a sua musealização, que lhes atribui uma outra natureza, de estudo e exibição. Porque, citando agora a frase completa de Bryony Dixon, “os press-sheets são documentos relevantes para o historiador de cinema não só como fonte de informação detalhada sobre um filme específico e a sua produção – não obtenível noutro lado – mas também como história social, como registo das tendências gráficas, da moda e da própria história do marketing de cinema”[ii].

Teresa Barreto Borges
Tipologia documental: press-sheets
Cota: PS 39


[i] Bryony Dixon (2015), 1929 and the joys of the pressbook (https://www.bfi.org.uk/news-opinion/news-bfi/features/1929-joys-press-book)
[ii] Idem.

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