Textos & Imagens 34



Os cartazes dos filmes de Woody Allen são o chamariz perfeito para o espectador contemporâneo contemplar as suas obras. À primeira vista, aproximam-se da maioria dos cartazes promocionais com selo da indústria, no sentido em que geralmente dispõem imagens de cenas emblemáticas dos respectivos filmes, sempre acompanhadas com a estampagem de uma vasta lista de nomes dos actores de primeira linha que marcam o cinema ocidental. Em boa verdade, vejam-se os cartazes de filmes “allenianos” onde constam as presenças de Diane Keaton, Carrie Fisher, Dianne Wiest, Meryl Streep, Leonardo DiCaprio, Charlize Theron, Penélope Cruz, Hugh Jackman, Kate Winslet, etc., personalidades de hoje cujas imagens preservam a lógica do star-system, e que continuam a fascinar os públicos. Sob este exemplo, os cartazes do cinema norte-americano surgem sempre como espécie de oásis, retendo qualquer coisa do cinema clássico de Hollywood, sendo Woody Allen um dos seus claros expoentes. Aliás, trata-se de um autor amplamente aclamado por todas as academias da cinefilia contemporânea.
Não obstante, a concepção dos cartazes dos seus filmes não se reduz aos seus protagonistas. Na tentativa plena em cativar o público de hoje, e sobretudo aquando da deslocação geográfica e cinematográfica do norte-americano para a Europa, os seus cartazes começaram a convocar uma outra herança cultural, de um minucioso domínio pinturesco, como se de uma nova marca autoral se tratasse. Por aqui, os cartazes divergem dos vulgares cartazes do cinema de massas. Refiro ao caso particular de “Meia-Noite em Paris”, o 44º projecto cinematográfico de Woody Allen, que estreou em Portugal em setembro de 2011, e que teve honras de abertura no Festival de Cannes desse mesmo ano. Sem autor propriamente conhecido, o cartaz é da autoria da empresa de design gráfico norte-americana Cardinal Communications, também responsável pelos cartazes de “Café Society” (2016) ou “Blue Jasmine” (2013), outros dois filmes recentes de Woody Allen. De facto, reflectir sobre o cartaz europeu desta comédia decorreu do convite que me foi feito pela equipa do Arquivo Fotográfico da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, onde usufrui de grande parte do meu tempo enquanto estudante de Ciências da Comunicação – Cinema e Televisão. Assim sendo, importa, desde logo, situar o enredo desta obra que, em 2011, atingiu o recorde de filme independente de maior receita de bilheteira nos EUA, com 56,5 milhões de dólares.
Em “Meia-Noite em Paris”, Gil (Owen Wilson) é um argumentista de Hollywood, que viaja para Paris na companhia da sua noiva Inez (Rachel McAdams) e dos seus sogros, nas vésperas do seu casamento, a fim de encontrar inspiração para escrever o seu primeiro romance. No entanto, desgastado com a rotina da noiva, Gil caminha por Paris à noite, para observar as luzes, mas por mero acaso e ao som das doze badaladas, o seu mundo vira do avesso. Lá, descobre um mundo do século passado, cruzando-se com os seus ídolos dos loucos anos 20 (com encontros com F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Pablo Picasso, T.S. Eliot, Gertrude Stein, Salvador Dalí, Cole Porter, Matisse, entre outros) que o ajudam a ganhar inspiração. A ideia base do filme mostra-nos um protagonista que prefere o passado, que nunca pode tocar, ao seu presente. A referência à trama é verdadeiramente crucial para decifrar o cartaz, cuja primeira leitura será sempre bastante enigmática ao observador.
Posto isto, o ponto de fuga do cartaz é imediatamente o homem que caminha solitário ao lado do Rio Sena, em Paris. De seguida, chocará a qualquer observador atento a forma como o céu se exibe. Em vez da noite realista, a meia-noite é aqui de carácter fantástico e onírico e diz respeito a um fragmento do quadro “De sterrennacht”, do holandês Vincent van Gogh (1853-1890), datado de 1889 quando o artista tinha apenas 36 anos.
“A Noite Estrelada”, óleo sobre tela, encontra-se no The Museum of Modern Art (MoMA) e retrata aquilo que van Gogh observava da janela do seu quarto, no hospício de Saint-Rémy-de-Provence, onde se instalou de livre vontade, após o seu acto de automutilação. O pintor deixara de contactar com o mundo exterior, com os seus amigos, familiares e o seu maior apoio (o irmão Théo), resultado de um estado psicológico frágil e moribundo. Embora sem qualquer referência ao artista pós-impressionista em todo o filme, a presença da “noite” de van Gogh direciona o espectador para o imaginário de Gil e para as suas vivências sempre desenroladas à meia-noite.
Considerado uma das maiores obras do artista, o quadro é marcado por cores como o azul e amarelo, manifestando o azul escuro da noite em formas espirais, e dando com isso um sentido de movimento ininterrupto. Segue-se a representação das estrelas e da lua que colossalmente reflectem uma luz brilhante e contínua. Na realidade, as pinceladas turbulentas em espiral repercutem o sentido inerente no próprio filme, da passagem do tempo, pressagiando com isso as viagens de Gil ao passado. Deste modo, toda a envolvência e intensidade do quadro aponta ao cenário vivido no filme e na mente desse homem que caminha, perfazendo a utopia dos seus desejos. Não será ainda porventura indiferente as cores do vestuário desse homem, que assimila-se às cores do quadro, nomeadamente o amarelo das calças idêntico ao amarelo das estrelas, e o azul da camisa idêntico ao azul da noite, como se fluidamente Gil se fosse infiltrando na noite, na paisagem que lhe é circundante.
Bem a propósito, a mesma deambulação solitária de Gil – que caminha com as mãos nos bolsos e com olhar despreocupado junto ao Sena-, reenvia ao termo, tido como símbolo do modernismo, do “flâneur” (apresentado por Charles Baudelaire). O “flâneur” designa exactamente esse sujeito anónimo que procura o seu lugar na multidão, por muito que se sinta estranho e deslocado dela.
Gil é o “flâneur” que se descobre em Paris, cidade que é reestruturada à sombra da sua imaginação. E sendo Gil mais um “alter-ego” de Woody Allen (com todas as nuances que o termo convoca), o cineasta é também ele um “flâneur”, que percorre, em França, lugares e tempos que lhe são estranhos, mas por onde quer ficar e deixar o seu coração, os seus sentimentos românticos. Por sua vez, e muito brevemente, o termo “flâneur” aponta a um dos autores que mais se debruçou sobre o termo, no contexto da crise da experiência da modernidade. Falo de Walter Benjamin e do seu texto facilmente acedido, “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica” (1955). Nele, Walter Benjamin declara o “flâneur” como o artista moderno profundamente consciente da agitação da modernidade, e que vive numa sociedade que perdeu a capacidade de compartilhar as experiências da sua vida, encaminhando ao desfasamento e insatisfação do(s) sujeito(s). É essa realidade de uma sociedade dominada de indivíduos dramático-depressivos que não têm tempo para se apaixonar, ou sequer para sonhar. Nesta lógica, a ideia convida uma vez mais ao quadro sentimentalista de van Gogh. Tanto Vincent van Gogh, sozinho no seu quarto, como Gil, que caminha sozinho em Paris, vivem sobre um inquietante silêncio interior, porque ambos sabem que terão que se sujeitar à sociedade na qual vivem, por
muito que dela queiram escapar.
Assim, é possível comparar o exílio europeu de Gil, e o exílio voluntário de Vincent van Gogh no hospício, como um reflexo óbvio do exílio que Woody Allen manteve na sua carreira entre os anos de 2005 e 2014, nos quais filmaria em várias localidades europeias desde Inglaterra, passando pela França e até pela Itália. Mesmo numa localização diferente, o realizador procurou sempre reavivar a memória do espectador para o passado, especialmente para os tempos áureos do seu cinema (os anos 70 e 80 com a manifestação do novo cinema independente), colocando em debate novos assuntos, que evidentemente não conseguiu colocar no seu país. No final de “Meia-Noite em Paris”, descobrimos com Gil a realidade e o verdadeiro presente que tem de ser aceite. A personagem a certo momento diz, “É isso o presente. É um pouco insatisfatório porque a vida é insatisfatória”.
Com o cinema a caminhar a passos largos para uma nova realidade – a dos abusivos efeitos digitais –, estará mais que na hora de aceitar este presente, mas sem nunca esquecer que é possível fazer uma viagem no tempo com Woody Allen e voar até ao passado onde a magia ainda acontece.
 
Virgílio Marcelo Pereira Jesus
Colaborador da Magazine.HD

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