Textos & Imagens 33



A revista “Framework: Quarterly Cinema Journal” iniciou a sua publicação em 1975 (sem indicação de mês), tendo origem na Warwick University Arts Federation, Warwickshire, Reino Unido. Os primeiros números evidenciam um confrangedor amadorismo e indigência quase total no que se refere à conceção gráfica e à imagem, situação essa que melhora significativamente ao longo da vida da publicação. Percebemos imediatamente que a tónica é posta no tecido textual, privilegiando a forma ensaística mais ou menos extensa – comum, de resto, às publicações semelhantes com origem académica –, e uma elaborada relação entre os temas tratados em cada um dos números, notando-se que as distintas abordagens se dividem equalitariamente entre a análise de filmes ou obras de realizadores e tendências próximas ou distantes da produção teórica. Importa referir que, quando nos debruçamos com alguma atenção sobre as publicações cinematográficas de origem académica, se torna evidente que esses objetos evitam ser dominados por uma abordagem específica do cinema, seja ela estruturalista, semiótica, pragmática, ou outra. A “Framework” não é uma exceção a esta regra; a variedade de abordagens contidas logo no primeiro número dá o tom para aquilo que viria a ser a identidade da publicação, ou seja uma multiplicidade de perspetivas apoiada nas múltiplas correntes crítico-teóricas contemporâneas que não descura, como atrás foi referido, um olhar retrospetivo para uma meta-história da teoria cinematográfica de outras eras. Aparentemente, esta metodologia poderá parecer caótica e heterogénea ou, pelo menos, não evidenciar um critério editorial coerente, sendo essa impressão dissipada com uma observação atenta do conteúdo e estrutura dos diversos números da publicação. De facto, fica evidente um esforço continuado dos editores para a criação de um “enquadramento” propício à exploração e análise aprofundada dos temas propostos, visando modos estruturados e construtivos de abordagem do fenómeno cinematográfico. Se este desígnio é importante em si mesmo, ele é acompanhado de um outro, não menos importante: uma política editorial que exige e é exercida em nome de métodos analíticos rigorosos e pertinentes empregues na abordagem de um dado tema ou objeto. Percebe-se este cuidado e esta exigência: nos tumultuosos anos 70 britânicos a legitimidade e pertinência dos estudos fílmicos no meio académico ainda era objeto de debates intensos e o seu estatuto e posição eram ainda frágeis e vulneráveis, ao contrário do que acontecia na outra margem do Oceano Atlântico. Assim, interpretamos o projeto da “Framework” como um passo gigante nesse caminho, ou como um contributo importante para a aceitação dos estudos sobre cinema com o mesmo estatuto e a mesma legitimidade das outras artes. Neste ponto, convirá lembrar que as instituições académicas, ou os seus responsáveis, digamos assim, mais conservadores, utilizavam como argumento principal na sua batalha contra a inclusão do cinema nos currículos académicos a falta de um “corpus” de literatura que orientasse e fundamentasse a estrutura e conteúdo de estudos superiores no domínio cinematográfico. Acreditamos que a “Framework”, e congéneres, vieram de certo modo colmatar essa lacuna, constituindo-se como testemunhos válidos e operantes de grande número de investigadores e teóricos que assim encontravam meios apropriados para a expressão dos trabalhos que produziam.
Estabelecido o “framework” metodológico e empírico da “Framework”, importa agora debruçarmo-nos sobre o seu conteúdo e convicções, começando por dizer que fica demonstrado ao longo das suas páginas que nem a teoria de autor, nem conceitos como, por exemplo, o de “género cinematográfico” se podem manter sozinhos e isolados como princípios metodológicos da teoria e crítica cinematográficas; e num grau menor que a análise do filme como unidade singular é insuficiente, apostando os diversos redatores numa crescente interação entre diversas disciplinas a fim de se alcançar um melhor entendimento do cinema e da teoria cinematográfica de um modo geral. Desse modo, parece-nos que a preocupação central da revista foi quase sempre a de encontrar, selecionar e refinar utensílios teóricos que permitissem uma mais aprofundada reflexão e compreensão do seu objeto – a instituição cinematográfica e o seus produtos, o cinema como arte e indústria. Este processo de exploração forçou o corpo editorial a um grau maior de consciencialização da multitude de determinações – culturais, ideológicas, históricas, económicas – que operam na produção e receção dos filmes, forçando o desenvolvimento de procedimentos analíticos que tornam a complexidade dessas determinações acessíveis à consciência. Durante a época em que a “Framework” foi publicada, este processo produziu uma expansão sem precedentes no sentido do objeto dos estudos fílmicos, e uma polarização dos métodos críticos, cuja necessidade é assumida sem subterfúgios em múltiplos artigos publicados, compreendendo, no entanto, que uma síntese dialética vem a ser mais frutuosa e enriquecedora do que o combate de trincheiras praticado com intensidade e devoção pelas congéneres francesas (e também, embora num grau menor, pelas italianas). Em suma, os autores que expuseram e se expuseram com brilhantismo, rigor e algum pioneirismo nas páginas desta publicação acreditaram sempre que seria proveitoso provocar uma tensão produtiva no interior e entre os materiais em análise, na convicção de que qualquer criticismo dialético verdadeiro e genuíno só poderia ser constituído trabalhando através da contradição. Nem a antítese nem a síntese podem ser válidas quando contradições fundamentais são tomadas como definitivas e perentórias.
A fim de ilustrar a estrutura e o desenvolvimento dos conteúdos da publicação, poderíamos citar qualquer um dos números publicados. Escolhemos o número 4, verão de 1976, que nos parece exemplificar na perfeição quer as contradições e a sua superação, quer a metodologia a que nos referimos anteriormente. Assim, esse número foca predominantemente o intenso e recente (e para determinadas instâncias, desprovido de sentido) debate em torno da psicanálise com um artigo de Andrew Britton criticando a análise psicanalítica que Paul Willemen efetuou do filme “Pursued” de Raoul Walsh; Stephen Croft desafia os argumentos avançados por um ensaio sobre a abordagem psicanalítica do cinema da autoria de quatro membros da revista “Screen”, seguindo-se uma apresentação do filme “Jaws” de Steven Spielberg em termos do “prazer do texto” e a sua construção ideológica através de códigos especificamente cinematográficos, da autoria de Stephen Heath. A leitura editorial do filme “The Reckless Moment” de Max Ophuls coloca o emprego da psicanálise em termos completamente diferentes dos utilizados nos outros artigos. Como se queria demonstrar, a diversidade de abordagens, longe de ser um sintoma de confusão ou de falso conceito de “neutralidade”, representa uma etapa necessária na prossecução dos objetivos a que esta revista se propôs desde o primeiro número: aplicar ao cinema o conhecimento contemporâneo e trazê-lo para a consciência da modernidade.
 
Arnaldo Mesquita
 
Tipologia documental: publicação periódica
Cota: PP 525
Nível de descrição: indexação artigo a artigo

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