Textos & Imagens 32



Publicada pela primeira vez em 1951, esta é obviamente uma obra datada. Datada num sentido muito preciso: depois da sua edição a teoria cinematográfica como domínio epistemológico evoluiu, transformou-se, incorporou novas vias de análise e novas áreas de conhecimento, sobretudo devido ao influxo de pesquisas académicas oriundas do universo anglo-saxónico. A razão pela qual a destacamos, para além do seu valor intrínseco, é o seu absoluto pioneirismo e singularidade. De facto, é a primeiríssima síntese das teorias cinematográficas elaboradas até então, caracterizando-se pelo seu caráter exaustivo e rigoroso. De resto, o pioneirismo de Guido Aristarco não se esgota na conceção desta obra: foi o primeiro professor universitário de cinema em Itália (em Turim e depois em Roma). Destacou-se também pela fundação e direção da revista Cinema Nuovo e pela introdução da teoria marxista na crítica cinematográfica, influenciado pelo pensamento de Antonio Gramsci e Gyorgy Lukács. Quando faleceu, aos 80 anos, deixou um legado que, seja qual for a perspetiva, é notável, encerrando uma era de intensos debates ideológicos sobre o “especificamente cinematográfico” e a sua inserção na alta cultura, numa chave marxista e gramsciana consagrada em 1965 no prefácio que Lukács escreveu para a sua obra “Il Dissolvimento Della Ragione : Discurso Sul Cinema”[1]. O primeiro capítulo desse livro, intitulado “Marx, O Cinema e a Crítica do Filme”, enuncia, catorze anos depois, o modo como Aristarco utiliza os utensílios e a metodologia do materialismo dialético, não só na análise de filmes mas também no modo como analisa a estrutura das grandes teorias cinematográficas na obra que hoje nos ocupa, pelo que a leitura deste texto se torna útil para a total compreensão de textos que, de outro modo, poderiam parecer excessivamente determinados por tendências ideológicas e subjugados a um programa político que lhes diminuiria o alcance e a importância.
Como sabemos, uma teoria é um conjunto de proposições coerentes e hierarquizadas representando um domínio determinado de fenómenos ou objetos, visando compreender, explicar, interpretar esses mesmos fenómenos ou objetos. Assim, as noções, ideias e conceitos abstratos aplicados a um domínio particular, como é o caso do cinema, são filtradas por Aristarco à luz de uma pragmática que nunca perde de vista a concretude desse mesmo domínio; a construção intelectual, hipotética e sintética, organizada em sistema é sempre verificada por um protocolo experimental; um conjunto de leis formando um sistema coerente que dá conta da natureza, variações e continuidades dos objetos. Se bem que o nosso sentido contemporâneo de teoria não derive precisamente do trabalho de Aristarco, damos por adquirido que o seu uso particular foi certamente representativo de uma vasta metamorfose ocorrida no imediato pós-guerra, envolvendo um novo conjunto de critérios indispensáveis para a identificação da teoria aliado a um distintivo conjunto de práticas institucionais. De outro modo, o empreendimento de Aristarco seria confrontado com uma dificuldade aparentemente inultrapassável: o de uma teoria sem prática e de uma prática sem teoria, nó górdio e dilema que o autor resolve ao criar o quadro mais completo dos debates originais ao fim dos anos 40, revelando uma enorme capacidade de compor uma galeria unificadora em que faz entrar todos aqueles autores que confrontaram o cinema a partir de uma perspetiva mais vasta do que a da simples recensão desta ou daquela obra particular. 
A esta perspetiva histórica-cronográfica vem reunir-se uma profunda reflexão sobre as problemáticas associadas a cada uma das estruturas teóricas analisadas, tendo sempre como referência obras particulares que ilustram essas problemáticas. É desse modo que Aristarco faz coalescer o ponto de vista ideológico (e os instrumentos de análise que esse ponto de vista pressupõe), as teorias analisadas e a prática concreta que lhes corresponde e as valida, conferindo-lhes um conteúdo concreto. Referimos anteriormente um protocolo experimental que validaria as proposições, um pouco à maneira dos processos em vigor nas ciências exatas e na teoria filosófica do conhecimento. Querendo clarificar tal afirmação, diríamos que a admissão da existência de uma “história da teoria cinematográfica” já pressupõe uma narrativa histórica coerente e, talvez, teleológica – para não abusarmos do termo determinista que subjaz a todo o materialismo dialético – ou seja, que se dirige ou visa um fim, um objetivo, uma qualquer realização que se justificaria a si mesma no término do processo, afastando-se de uma “gaia ciência” revista e atualizada. Por tal motivo, é no ponto de interseção de teoria e prática e na duração que Aristarco julga a força das teorias que analisa exaustivamente. Constituindo-se como obra de sistematização geral, esse esforço de exaustividade analítica torna-se ainda mais impressionante, tanto mais que Aristarco procura sempre não desligar a teoria cinematográfica de uma estética geral e do seu desenvolvimento; nesta perspetiva – e nesta época – não existiam problemas estéticos especificamente cinematográficos; existiam problemas comuns a todas as artes e o trabalho teórico consistia precisamente na identificação desses problemas, evitando assim as armadilhas de um formalismo que resultaria não só da avaliação do cinema de um ponto de vista estritamente cinematográfico, como também da aplicação ao cinema de cânones e leis gerais prévios e dogmaticamente entendidos.
Finalmente, gostaríamos de estabelecer um inadiável encontro entre o pensamento de Aristarco e o de Siegfried Kracauer, um autor de que já nos ocupámos nesta série de textos (ver Textos & Imagens nº 7). Apesar de todas as diferenças conceptuais, de estilo e de ideologia, Aristarco e Kracauer convergem numa convicção fundamental: a conceção do cinema como instrumento privilegiado de análise “científica” da realidade, pronto para refletir sobre o mundo e definir-lhe a marcha. Bem longe, portanto, da tensão ontológica de André Bazin ou do abandono otimista de outros. Nesse sentido, o “realismo crítico” de Aristarco compagina-se com o “retorno à realidade física” de Kracauer: o primeiro valorizando mais os valores sociais, o segundo mais atento aos factos sociais; ambos encarando o cinema como modo de conhecimento objetivo da realidade e das contrastantes mundivisões que se perfilam na modernidade.
 
Arnaldo Mesquita
 
Guido Aristarco, Storia delle teoriche del film. Itália, Giulio Einaud Editore, 1951
Tipologia documental: livro
Cota: 620


[1] Disponível na Biblioteca da Cinemateca em tradução castelhana.

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