Textos & Imagens 30


Fotograma do filme The Vanishing Dagger (EUA, Eddie Polo, Edward Kull, 1920)

Entre as várias formas de memorabilia cinematográfica, de colecionadores portugueses chega-nos um método bastante inusitado e desconcertante de recolha e apropriação de objetos, conhecidos na gíria da época como “Os Pontos”. Os colecionáveis eram os próprios fotogramas do filme, ou seja, a matéria fílmica em si, e na sua origem encontra-se uma das mais ousadas e inventivas fraudes imaginadas pela cinefilia portuguesa.
Esta é a sua história, tal como contada por António Lopes Ribeiro (1908-1995) num artigo para o número especial da revista Imagem (50, 1932) dedicado a memórias de infância.

Início dos anos 20. Os projecionistas de filmes, em particular aqueles que trabalham em cinemas de segunda categoria, “colaboram” de perto com as imperfeições mecânicas dos projetores nos danos causados aos filmes exibidos. É que os carretos das máquinas mordiam as margens da película, rasgando metros de perfurações, e o projecionista, agindo como juiz implacável, acabava por cortar o filme sem piedade, deixando caídos no chão alguns desses destroços.
Foram esses retalhos que um rapaz um dia encontrou e, impelido pela sua paixão pelo cinema, começou a roubar no final de cada sessão. Colecionando-os com amor, rapidamente se tornou a inveja dos restantes ardinas a quem exibia os seus tesouros, recolhidos durante o intervalo das matinées. Os outros tentavam convencê-lo a dar-lhes um ou dois dos seus itens, e um dia alguém oferece-lhe dinheiro em troca de um grande plano de William Duncan. Hesitando ao início, acaba por aceitar a troca. A mina de ouro tinha sido descoberta. Contudo, não foi ele quem impulsionou o negócio.
O grande impulso foi dado por “Y”, um indivíduo não tão ingénuo e supostamente muito ardiloso, que se interessou pela coleção e negócio de “X”. Insinuando-se junto de “X” para ganhar a sua confiança, “Y” fica a saber que “os pontos” eram apanhados de entre os restos que os projecionistas deitariam fora, e decide que essa não era a melhor forma de conduzir o negócio. De facto, aos compradores interessavam sobretudo grandes planos e imagens de cenas centrais do filme, o que nem sempre se conseguia encontrar entre o saque dos filmes projetados. O que tinha de ser feito, pensou, era ir diretamente à fonte – ao filme em si – e habilmente cortá-lo. E foi o que fez, com o auxílio de alguns intermediários que contratou para o efeito, estabelecendo um modelo organizacional que incluía um par de projecionistas e alguns vendedores. 

Depois dos ardinas, o primeiro grupo de compradores que pouco dinheiro tinha para despender, “Y” alarga o negócio a um outro mercado, o dos estudantes liceais, mais abastados e por isso capazes de disponibilizar os montantes a que entretanto cada “ponto” já chegava.
O negócio foi descoberto devido à ambição excessiva de “Z” e ao enorme sucesso do filme Os Mistérios da Selva. Este filme em 15 episódios estreou no Condes em setembro de 1922 e foi posteriormente exibido no cinema em que “Z” trabalhava, de onde seguiu para o Chiado Terrasse. E, de acordo com a prática dessa época, as personagens principais eram apresentadas no início do filme, a seguir ao título principal; ao nome de cada personagem seguia-se o seu retrato. Mas o que se verificou foi que, quando o filme foi exibido na última sala (Chiado Terrasse), a cópia já não apresentava quaisquer retratos! Aproveitando-se de um tão bom quinhão, “Z” tinha cortado todos os retratos, deixando apenas os títulos que, quais testemunhas silenciosas, denunciavam a empresa. O público, enraivecido, pateou e assobiou. O exibidor informou-se sobre o ocorrido e relatou-o à companhia distribuidora, que por sua vez denunciou o facto à polícia. O processo judicial que se seguiria põe fim ao negócio.

Algumas destas coleções de fotogramas de filmes, guardados em cadernos de folhas quadriculadas e capa preta, chegaram-nos através de diferentes legados; é o caso de Manuel Félix Ribeiro, fundador da Cinemateca, que exibe a sua própria coleção ao realizador Leonel Brito no filme Félix Ribeiro, Dr. Celulóide, de 1980. Nos restantes casos (duas outras coleções, significativamente mais pequenas), não é possível estabelecer se quem as legou foram os seus colecionadores em primeira-mão. Mas este episódio demonstra exemplarmente o fascínio pelo cinema e a busca pela materialização deste desejo, assim transfigurando os objetos coletados num continuum da experiência cinematográfica na vida quotidiana.
 
Teresa Barreto Borges
 
Texto originalmente publicado em Journal of Film Preservation, 83, novembro de 2010.

Tipologia documental: álbum (iconografia)
Cotas: AB1-19, AB1-20, AB1-21

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