Textos & Imagens 3



Henri Langlois, fundador da Cinemateca Francesa, escreve em 1955 que as origens da imagem cinematográfica remontam à noite dos tempos, mas considera de seguida uma baliza temporal específica: “Oficialmente, a história da cinematografia inicia-se no século XVII com a obra do sábio Padre Jesuíta Kircher e as suas descrições da câmara escura, da imagem reversível, das suas lanternas mágicas, então apanágio exclusivo dos gabinetes científicos dos reis. É em Ars Magna Lucis et Umbrae que encontramos gravada pela primeira vez a lanterna mágica”.
Langlois não refere as diferenças entre a primeira e a segunda edição do livro (na primeira, publicada em Roma em 1646, Kircher apresenta a imagem e a descrição de um sistema de projeção e é só na segunda, publicada em Amesterdão em 1671, que se refere claramente a um aparelho semelhante à lanterna mágica, reclamando sua a invenção e dizendo ter deixado o seu aperfeiçoamento a “outros, melhores inventores”), antes preferindo encontrar uma data intermédia entre as duas para atribuir essa baliza temporal; o que provavelmente lhe importaria sublinhar neste texto era a necessidade de inclusão das diversas etapas que antecedem o dispositivo cinematográfico na História do cinema. Mas ao fazê-lo, estabelece também uma interpretação quanto ao horizonte museológico das cinematecas; e ao designar Ars Magna Lucis et Umbrae faz desta obra um primeiro vestígio museográfico do cinema.
Uma mesma visão desse horizonte museológico era já certamente partilhada por Manuel Félix Ribeiro, fundador da Cinemateca Portuguesa, que cedo terá adquirido um exemplar da segunda edição de Ars Magna Lucis et Umbrae. Dizemos “cedo” porque embora seja certo que não podemos precisar quando e onde ou a quem terá Félix Ribeiro adquirido esse exemplar que se conserva na Cinemateca, sabemos contudo que imagens de algumas das suas páginas surgem no genérico do nº 148 do jornal de atualidades cinematográficas Imagens de Portugal cuja primeira notícia nesse número era, precisamente, a da inauguração pública da Cinemateca, em 1958.
E o pouco mais que se pode saber à data de hoje sobre a história deste exemplar advém dos traços encontrados no próprio documento: logo na capa encontra-se colado o resto de um selo, onde se pode ler, a espaços, alguns excertos do que seria o texto na sua integridade original: “Phys – – 24 – – R. Friedlander – – Sohn – – Berlin” (R. Friedlander und Sohn era o nome de uma loja de comércio de livros em segunda mão, pertencente a uma família judaica, sedeada em Berlim, também encadernador e mais tarde editor especializado em livros científicos); poder-se-á assim deduzir deste selo apenso no livro que em determinado momento da sua existência terá sido transacionado por R. Friedlander und Sohn e que estaria identificado no catálogo na categoria de Física, com o número “24”. O segundo traço encontrado, na folha de rosto do livro, consta de um carimbo a negro onde se pode ler “D’Ed. PERGENS”, marca de propriedade de Eduard Pergens (1862-1917), médico paleontologista de origem belga que em 1896 escreveu para os Anais da Academia Real das Ciência Médicas e Naturais um artigo intitulado “Action de la Lumière sur la Retine”. Os restantes traços alfanuméricos, inscritos tanto a lápis como a caneta, não permitem mais nenhuma dedução.
Note-se ainda que, apesar de não existir nenhum estudo sobre o âmbito da projeção da obra de Athanasius Kircher em Portugal, podemos inferir uma ampla difusão do seu trabalho pelo número de exemplares existentes em arquivos e bibliotecas do nosso país, muitos deles oriundos das extintas ordens religiosas (como é o caso do exemplar, também da segunda edição de Ars Magna Lucis et Umbrae, existente na Biblioteca Nacional de Portugal, proveniente do Convento de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa). 
Numa época em que se esboçava o despertar do espírito científico e o recuo na crença na feitiçaria e em que o racionalismo, sob a influência do cartesianismo, empreende a sua marcha conquistadora, a obra de Athanasius Kircher apresenta-se como uma das últimas manifestações de um saber universal. Os seus textos enunciam a diferença entre magia natural e magia artificial e todos os aparelhos e fenómenos descritos indicam aos leitores a necessidade de revelação da técnica utilizada, para que a audiência dos espetáculos compreendesse claramente tratar-se de uma arte catóptrica e não ilícita. Na base da “magia” exibida por Kircher encontra-se a filosofia aristotélica ensinada nos colégios jesuítas e a cultura barroca da época, que pelo seu aspeto teatral, profusão decorativa e apelo ao maravilhoso, afirma as preeminências celestes da religião romana e as terrestres das aristocracias. “Chamo de magia natural aquela que produz efeitos invulgares e prodigiosos através de causas, excluindo qualquer comércio, implícito ou explícito, com o Inimigo da humanidade”.
Kircher pretendia dedicar as segundas edições de algumas das suas obras a Ernst August (1629-1698), Duque de Brunswick-Lüneburg e bispo de Osnabrück como forma de agradecimento pelo patrocínio que frequentemente lhe destinava e com quem se correspondia sobre os mais diversos assuntos. Contudo, e como o informa Johannes Janssonius Van Waesberg (1642-1681), o editor holandês da obra de Kircher, os trabalhos de impressão atrasam-se devido à cessação do comércio, à escassez do papel, à requisição pelos militares de todo o pessoal da tipografia (decorriam então as chamadas Guerras Anglo-Holandesas). E quando finalmente a segunda edição de Ars Magna Lucis et Umbrae é publicada em 1671, Ernst August já tinha morrido e o livro é dedicado a Johann Friedrich von Waldstein (1642-1694), arcebispo de Praga que dera a Kircher um enorme apoio financeiro para o restauro do santuário de Mentorella (a cerca de 80 km de Roma), local onde, a seu pedido, seria colocado um relicário com o seu coração. A página de dedicatória do livro apresenta assim o retrato do arcebispo Waldstein da autoria de Hendrik Bary (1640-1707), conhecido gravador holandês que se notabilizou pelos retratos de estadistas.
Sobre a estrutura do livro, cujo título completo se pode traduzir por “A Grande Arte da Luz e das Sombras, dividido em dez livros, em que os admiráveis poderes e efeitos da luz e da sombra são propostos em experiências novas e variadas e de maneiras recônditas, para os diversos usos da humanidade”, diz o próprio autor que “tal como os homens sábios hebreus afirmam um mundo construído por dez raios divinos, assim nós completámos dez livros ou temas distintos, por assim dizer, dez livros em dez raios distintos, o mundo da luz e das sombras, ou seja, a nossa arte”.
 
Teresa Borges

Tipologia documental: livro
Cota: 70”00”
Notas: Leitura reservada. Disponível para consulta: KIRCHER, Athanasius – Ars magna lucis et umbrae : liber decimus : reproducción fasimilar da edición de 1671 con estudios introductorios e versións ó galego e castelán / Athanasio Kircher ; trad. Inés Verde Pena e Mª Liliana Martínez Calvo, baixo a coordinación de José Luís Couceiro Pérez.- Santiago de Compostela : Universidade de Santiago de Compostela. Servicio de Publicacións e Intercambio Científico, 2000. 455 p. Cota: 70″00″.

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