Textos & Imagens 28



Papá. Lisboa ainda é muito longe… Assim chamou o artista plástico Stuart de Carvalhais a um dos seus trabalhos datado desse ano de 1930, e publicado no periódico “Sempre Fixe”. José Herculano Stuart Torrie de Almeida Carvalhais (1897-1961), o “Stuart” como era conhecido, e cuja inconfundível assinatura é bem visível nos seus trabalhos, foi um dos mais marcantes caricaturistas e comentadores de costumes que a primeira parte do século XX deu a conhecer de entre os chamados “pintores ou arquitetos modernistas”. Tal como na legenda acima, a Lisboa de então estava muito longe de reconhecer o modernismo e a perspicácia do artista, e muito menos a veia plástica deste inconformado, homem de mil ofícios, que lutou para dar ao desenho e à caricatura um estatuto não efémero ou de simples passatempo para ociosos. Nessa distante Lisboa, era perigoso alguém designar-se como “artista plástico”, o que remetia para uma crítica do regime ou para uma atitude de não alinhamento com a sagrada cartilha: pátria; governo; nação de fé, e paz estagnada. O acesso às artes era restrito e deixado ao cuidado de uma burguesia próxima dos governantes, calculista e de cabeça baixa, embora não isenta de comentários pouco próprios que, não vá o diabo tecê-las, se sussurravam nos cafés. Para os outros, a ralé operária ou artesanal (que calcorreavam as ruas da capital de pés descalços), os divertimentos limitavam-se às festas religiosas e ao bodo que lhes era distribuído em ocasiões festivas, segundo merecimento e como exemplo para todos.
O lápis de Stuart não poupava nem uns, nem outros. A prova está patente na ilustração para um programa do cinema Chiado Terrasse, sala na sua maioria de reposições, mas acessível a todas as classes como era então “o sonoro”, local onde se espremia uma clientela ávida de novidades que chegavam- com alguns anos de atraso – a conta-gotas, literalmente: o filme era projetado em várias partes, com risadas entre a mudança das bobines, e ao som de uma banda de música ambiente.
Os janotas de ar “blasé” da ilustração, seriam, noutro contexto, substituídos pelas varinas ou os catraios das vielas junto ao rio, se não fossem pelos fadistas de boina a três quartos e beata a sair pelo canto da boca. Mas se a ida ao cinema era coisa fina, era também muito comum e, pelo menos na tela, a cidade piscava o olho ao que chegava de outras partes.
“Sim, meus meninos, Lisboa estava ainda muito longe…”
 
Joaquim Vacondeus

Tipologia documental: programa
Cota: PR 13779

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