Textos & Imagens 25



Esta é uma história de fragmentos, dos fragmentos de diversos exemplares do cartaz de GADO BRAVO que durante décadas repousaram entre os negativos fotográficos de vários filmes, servindo-lhes de invólucros individuais e contendo, cada um, a inscrição a lápis do número sequencial do negativo que envolvia. E embora esses negativos também há muito se encontrassem conservados na Cinemateca, só quando há alguns anos se procedeu ao seu reacondicionamento se levantou a hipótese e a expectativa de ali se encontrarem peças que eventualmente permitiriam recompor esses outros objetos. Separaram-se os fragmentos, agruparam-se pelos padrões e tipo de papel e arquivaram-se em caixas para no futuro nos dedicarmos à sua potencial reconstituição. A primeira tentativa veio a acontecer em meados do ano passado e logo se verificou que as expectativas não seriam, pelo menos aparentemente, goradas: uma manhã bastou para a ordenação de 32 fragmentos, com cerca de 28×42 cm cada, que, assim reunidos, reconstituíam o cartaz do filme GADO BRAVO – ainda para mais inexistente nas coleções! Procurou-se então montar as diversas peças deste puzzle sobre papel de conservação e, aí, deparámo-nos com uma questão adicional: é que o achado não era um conjunto de fragmentos de uma única peça; os pedaços terão sido cortados de diferentes exemplares de cartazes do filme, aleatoriamente, para o referido acondicionamento dos negativos de diferentes formatos. Mesmo recorrendo a todos os fragmentos encontrados, para poder recompor mais um centímetro ou dois do documento, a montagem final do quadro (cerca de 60 peças) apresenta lacunas: falta parte do nariz da figura feminina, o olho da figura masculina está incompleto, há lapsos de letras inteiras ou de parte delas… E assim a dimensão do cartaz, que num primeiro momento calculámos ser de 120×210 cm, deverá ser, na verdade, de 126×226 cm.
Pelos fragmentos e lacunas que apresenta, bem como pelos números inscritos a lápis que não foram apagados, o quadro final com a possível reconstituição do cartaz do filme entra assim no museu como dois objetos (musealia) num só: o cartaz-objeto, retirado da sua função original mas conferido de outro significado e valor; e o cartaz-objeto composto de fragmentos aos quais também foi retirada a função (já não a original do cartaz inteiro destinado a afixação para promoção do filme, mas a que conhecemos à data do seu “achamento”) mas que também adquire um outro significado, agora como testemunho dessa etapa intermédia da sua existência, e um outro valor.
Não conhecemos nenhum outro caso em que o caráter efémero dos cartazes esteja tão explícita e flagrantemente inscrito: material impresso de informação transitória, produzido sem intenção de ser preservado, mas que – e, neste caso, sobremaneira – adquire valor histórico enquanto marca de um determinado período.
Habituados que estávamos às modalidades ditas “clássicas” de aquisição, onde se inserem a compra e a doação, a incorporação e a transferência, a permuta e mesmo o depósito e, mais recentemente, a captura de recursos da World Wide Web, tivemos assim de introduzir esta nova forma que, parecendo-se com os “resgates” (que também já praticámos e que são relativamente frequentes no meio arquivístico), são ainda uma outra coisa, mais próxima da arqueologia. E tendo de definir a respetiva designação para esta nova modalidade, necessária à criação do código alfanumérico com que identificamos o processo de aquisição documental, citaremos Pêro Vaz de Caminha chamando-lhe: “achamento”.
 
Teresa Barreto Borges
 
Tipologia documental: cartaz
Autor: Pinto de Magalhãis
Impressão: Empresa Gráfica Apolino, Vila Nova de Gaia
Dim. c. 126×226 cm


Notas
o quadro com a reconstituição possível do cartaz integra a exposição temporária “A Canção de Lisboa & Gado Bravo”, patente nas Salas 6×2 e Carvalhos até 31 de julho, das 14h00 às 19h30

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