Textos & Imagens 24



Qualquer coisa tem de ceder           

Há duas infelicidades na vida: uma é não conseguir o que se deseja;
a outra é conseguir o que se pretende.

Este comentário é da mão de um produtor de Hollywood, big boss dos estúdios da Twentieth Century Fox, na altura em que se discutia a vedeta do filme que dá o título a esta dissertação. O filme, como é sabido, ficou interrompido, e mais tarde foi lançado numa versão muito diferente do projeto inicial, tendo ficado na história como o último trabalho de Marilyn Monroe.
Calculo que vos passe pela mente um comentário: “mais uma história da gloriosa e infeliz vedeta de quem já tudo se sabe…”. Não é esta a minha intenção.
A fonte escolhida é um livro disponível na coleção do Centro de Documentação da Cinemateca, da autoria do escritor americano Norman Mailer (31/01/1923 – 10/11/2007), lançado em 1973, altura em que o mercado começava a estar saturado de biografias da atriz, quase sempre especulativas e carregadas de teorias da conspiração sobre a sua morte. Nada disto é o tema da obra. O que a distingue é uma espécie de parábola dos tempos em que esteve ativa na profissão, como forma de retrato dos Estados Unidos (como nação e árbitro de conflitos entre blocos divergentes) que viram o fim do “sonho americano” para dar lugar a um inferno de interesses económicos e militares que desembocariam numa palavra: Vietname.
Norman Mailer foi uma personalidade atenta à sua época, tendo desenvolvido profissões como jornalista, escritor (duas vezes premiado com o Pulitzer), biógrafo (a ele se devem retratos de Muhamed Ali, Lee Harvey Oswald, Pablo Picasso, entre outros), e também como um dos fundadores da revista “Village People”. Na década de sessenta, juntamente com Tom Wolfe e Truman Capote redimensionou a imprensa num grupo apelidado de “New Journalism”.
A obra que dedicou a Marilyn Monroe poderia ter-se chamado “as aventuras de Norma Jean”, pois é o fundo da mulher e não a sua aparência (por muito atrativa que esta seja, e foi!) que lhe interessa. A sua exploração comercial foi a máscara perfeita para uma crise institucional que enfraquecia a poderosa nação após o desastre da Baía dos Porcos, o insucesso da luta pelos direitos civis e as reviravoltas dos acordos com a Máfia. O presidente mais carismático dos Estados Unidos lutava com uma dolorosa doença na medula que, segundo ele, aliviava com a prática sexual. Miss Monroe foi um dos “tratamentos”, depois de ter sido passada ao irmão, o Procurador-Geral Bobby Kennedy, pelas constantes chamadas para a Casa Branca pretendendo cobrar a promessa de que o presidente se divorciaria para casar com ela.
Mas escutas telefónicas postas a funcionar pela CIA conduziam igualmente a pistas da atriz passando pelo leito de patrões da Máfia, por intermédio de um famoso crooner, Frank Sinatra, que muito fez – e em vão – para a tentar calar no meio de delírios regados por champanhe e anfetaminas.
Nem tudo o que brilha é uma bomba sexual (diz a sabedoria pessoal) e Miss Monroe sentia-se ameaçada pela má folha junto dos estúdios e o receio da passagem dos anos. No seu último filme tentou uma cartada que foi uma das últimas passagens do cometa que a disparou para a Via Láctea: filmou uma cena noturna numa piscina, completamente nua, e exibiu um corpo ainda glorioso (de costas) enquanto se embrulhava num roupão. Mas a contagem final tinha começado: desobedecendo às instruções do realizador (George Cukor) ausentou-se de Los Angeles para, em Nova Iorque, cantar os parabéns ao presidente no Madison Square Garden.
Foi preciso o apresentador chamá-la ao palco duas vezes sem resultado. Risadas e graçolas foram improvisadas para encher tempo, quando Marilyn aparece embrulhada em peles e num vestido tão justo que a fazia caminhar como uma geisha. Diz o apresentador: “Ladies and gentlemen, the late Marilyn Monroe”. Ora bem, em inglês a palavra late tem dois significados: atrasada ou falecida…
E foi o segundo que ganhou a parada. Meses depois, sempre nua, envolta em lençóis amarrotados, com frascos de comprimidos na mesa de cabeceira, a estrela apagou-se em 3 de agosto de 1963.
Os contos de fadas têm sempre uma lição: esta é das mais amargas. Fazendo esforços, toda a vida, para ser levada a sério, frequentando o Actor’s Studio para provar que era uma atriz das de costado sério, casando com um dos mais famosos escritores americanos, escrevendo poesia e até – nos melhores momentos – oferecendo uma natureza doce e sensível, a mais sexy mulher do mundo esbarrou com uma parede intransponível: não conseguir amar-se a si própria. A necessidade de um permanente reflexo no espelho; seja ele os homens que a amaram e descartaram, a crítica ao seu talento cómico, ou a presença de tutores (Paula Strasberg) ou tratadores clínicos não a ajudaram a passar para o outro lado do espelho.
 
Joaquim Vacondeus 
 
Marilyn : a biography / Norman Mailer. London: Alskog Inc., cop. 1973, 270 p.
Tipologia documental: livro
Cota: 81 MONROE

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