Textos & Imagens 23



Bárbara Virgínia (nome artístico composto por Bárbara da avó e Virgínia da Mãe, de seu nome de nascimento, Maria de Lourdes Dias Costa) nasce a 15 de Novembro de 1923 numa família de classe média alta, já que o seu pai era Oficial Superior da Marinha, tendo crescido nas Avenidas Novas (segundo a tese de licenciatura de Marisa Vieira, também depositada na Biblioteca da Cinemateca). No cinema, a sua estreia como actriz dá-se em Sonho de Amor (1945) de Carlos Porfírio tendo no mesmo ano sido responsável pela narração do documentário Neve em Lisboa (1945) de Raúl Faria da Fonseca. No entanto, o nome de Virgínia é fundamental na história do cinema português por ser a primeira mulher a realizar uma longa metragem sonora no nosso país, e Três Dias sem Deus (1946) é esse filme. Realizou-o quando tinha 22 anos tendo assumido também o papel de protagonista, Lídia, uma professora primária desterrada nas serranias do interior. O filme estreou no Cinema Ginásio a 30 de Agosto de 1946 e seria apresentado na primeira edição oficial do festival de Cannes — como era conhecido à época, Festival Internacional do Filme de Cannes —, nesse mesmo ano, juntamente com Camões (1946) de José Leitão de Barros, a 5 de Outubro (segundo José de Matos-Cruz no monumental O cais do olhar, edição da Cinemateca Portuguesa).
O filme está parcialmente perdido restando dele apenas uma parte de banda de imagem sem banda de som, num total de 26 minutos separados em duas bobinas arquivadas no ANIM medindo um total de 868 metros. Dos 102 minutos de filme que se estrearam em 1946 só se conservou menos que a quarta parte. No entanto três documentos relacionados com a produção do filme conservam-se, sem lacunas, na Biblioteca da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema. É sobre eles que mais de demorarei.
Três Dias sem Deus é uma adaptação ao cinema do livro de Gentil Marques Mundo Perdido — um escritor “medíocre” (chamou-lhe José-Augusto França no recente O «Ano XX» Lisboa 1946) acostumado a escrever biografias romantizadas de conhecidas personalidades nacionais, traduções de romances de cordel anglo-saxónicos e adaptações literárias de filmes de sucesso. O livro não se encontra depositado no arquivo da Biblioteca Nacional e todas as pesquisas que fiz em nada confirmaram a sua edição, podendo este facto ser justificado por ter sido publicado como edição de autor (o que é pouco provável dada a sua implantação no meio literário e a sua associação recorrente à editora Romano Torres, entre outras), ou não ter chegado a ser publicado (permanecendo como um manuscrito), ou ainda não ter passado de uma ideia de.
Conservam-se, como disse, na Biblioteca da Cinemateca, a sequência dialogada, base de planificação (1945) da autoria de Raul Faria da Fonseca, autor da adaptação original, uma planificação do filme (visada pela censura), e uma outra planificação (anotada).
O primeiro documento é aquilo a que hoje chamamos sinopse alargada, uma série de 15 páginas separadas em três actos contando aquilo que no fundo é a história do filme. Em relação à planificação estão disponíveis na Biblioteca da Cinemateca dois documentos em papel de bíblia, organizados horizontalmente em colunas onde se explica a escala de cada plano, a sua duração, a acção que nele ocorre, o diálogo que nele se ouve, assim como referências a efeitos sonoros ou movimentos de câmara. Uma corresponde à versão da planificação que foi submetida à censura onde cada página está carimbada pelo dito órgão. A outra é uma planificação de trabalho anotada com alterações que se terão feito durante a rodagem, com mudanças de diálogos, cortes de cenas e demais alterações.
Na versão anotada há ainda várias referências aos dias de rodagem com identificação, por exemplo, daqueles que seriam com som directo e aqueles que seriam mudos, assim como a metragem prevista da película, 2800 metros, a duração prevista, um hora e quarenta e dois minutos e dez segundos, assim como o elenco de actores com diálogos (e no final os dias de trabalho de cada um deles, assim como o valor que iriam auferir pelo trabalho). 
De notar também que na capa desse documento se lê “propriedade de: Invicta Produtora Independente” onde a palavra Produtora foi riscada e se escreveu à mão Filmes, o que corrobora o facto de Três Dias sem Deus ter sido o primeiro e último filme da produtora Invicta Filmes Independentes, ao ponto de o nome da empresa não estar ainda definido à data da produção desse documento – de facto, a empresa foi a incursão aventurosa e sem repetição de Felisberto Felismino, um “conhecido comerciante de Lisboa” importador de canetas de tinta permanente da marca Conklin (explicou o director da Cinemateca, Manuel Félix Ribeiro no incontornável Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português – 1896-1949), que ainda assim recuperou nas 4 semanas de exibição do filme, até dia 26 de Setembro, o seu investimento não se dando por insatisfeito (de novo Matos-Cruz). A juntar a isto, descobrem-se ainda nesse documento alguns desenhos de plantas de décors, assim como do pormenor das janelas agrilhoadas que ladeiam a sala do piano. Outro dado relevante é a existência de uma página repleta de assinaturas de Barbara Virgínia que, com 22 anos, certamente usou essa página para ensaiar a sua rubrica.
Posto isto, um olhar comparativo sobre o fragmento conservado no ANIM permite perceber que a porção arquivada corresponde a uma série de cenas consecutivas que se iniciam com a chegada de Lídia a Casal de Lobos (a casa do temido Paulo Belforte, pai de um dos seus alunos do ensino primário, Pedro), na sua primeira visita, sendo aliás o primeiro plano, aquele em que Lídia é recebida pela criada que a deixa sozinha e se ausenta da sala. A sucessão de cenas das duas boninas, nos seus 26 minutos (a primeira dividia num total de 69 planos e a segunda, mais curta, em 34), termina no momento em que Lídia vê Belforte sair do quarto misterioso com a cadeira de rodas vazia (pertencente a Izabel, a mulher perturbada de Belforte) e depois de Pedro lhe aparecer choroso e ser recolhido pela criada. A mudança de bobines dá-se depois do regresso de Lídia a Casal de Lobos após descobrir que não tem mais alunos a quem ensinar e antes do ataque de Izabel após o almoço, antes da primeira confissão de Belforte.
Estes três documentos, especialmente a planificação anotada, são riquíssimas fontes sobre os modos de trabalho do cinema em Portugal durante os anos 1940. Mas são, também, objectos fundamentais para melhor perceber Três Dias sem Deus quando este se nos apresenta de forma lacunar (apenas um trecho de imagens sem som). Compreender estes documentos é penetrar na lacuna que a conservação insuficiente criou e, por exemplo, poderá permitir legendar o fragmento arquivado no ANIM (visto que os diálogos da planificação anotada parecerem corresponder perfeitamente à cópia). Aliás, este não é caso único, outros filmes existem cujas cópias arquivadas no ANIM perderam a banda de som (ou porções da banda de imagem) mas cujos documentos de trabalho foram conservados na Biblioteca da Cinemateca. O cruzamento entre estes diferentes materiais poderá trazer nova visibilidade a filmes que, pela sua presente fragmentação, são hoje raramente vistos e quase sempre esquecidos.
 
Ricardo Vieira Lisboa
Co-editor e co-fundador do À pala de Walsh | Programador do festival IndieLisboa | Realizador e vídeo-ensaísta | Investigador independente
 
Fonseca, Raúl Faria da – Três dias sem Deus, Sequência dialogada, base de planificação [Documento icónico]. Lisboa: Invicta Filmes – Produtora Independente, 1945. Sinopse alargado do filme depositada na biblioteca da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.
Três dias sem Deus, Planificação com anotações [Documento icónico]. Lisboa: Invicta Filmes – Produtora Independente, 1946. Disponível na biblioteca da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.
Três dias sem Deus, Planificação visada pela censura em 30 de Outubro de 1945 [Documento icónico]. Lisboa: Invicta Filmes – Produtora Independente, 1945. Disponível na biblioteca da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.

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