Textos & Imagens 22



Trafic e a herança Daney

A revista Trafic tem orgulho da sua condição quase clandestina. O leitor comum precisa de trabalhar um pouco para ter acesso a ela. A Biblioteca da Cinemateca Portuguesa – a primeira entre os seus pares a indexar esta revista – foi o local onde tive contacto com vários números. Pude verificar que esta é uma revista que mantém, perseverante, uma linha editorial que, citando o poema de Ezra Pound que abre o primeiro número (Canto LXXXI), sabe “amar a sua verdadeira herança”. Essa herança chama-se Serge Daney.
Daney torna-se crítico dos Cahiers du cinéma em 1964 e é promovido a redactor-chefe num período muito complicado: em 1974, ainda sob o efeito da turbulência do Maio de 68 e da fase maoísta da revista, o cinema havia desaparecido quase por completo das suas páginas. Daney entra em 1981 no Libération na qualidade de director da secção de cinema. Escreve profusamente, seguindo o passo da actualidade, sobre cinema, mas também sobre televisão, publicidade e ténis. Em 1991, começa a crescer a ideia de fundar uma revista, de periodicidade trimestral. Ganhará esta o nome de Trafic, numa homenagem ao filme homónimo de Jacques Tati, autor consensual no seio do comité editorial. Daney escreve para os três primeiros números, mas a sida impede-o de ver a terceira edição concluída.
A Trafic elevar-se-á por via de uma silenciosa redução, numa tentativa de devolver a escrita a uma urgência ditada não pela agenda mediática, mas por um programa pessoal. “Intempestiva, a nossa actualidade será desde logo a força que imprime qualquer um que escreve sobre, digamos, John Ford, porque ele tem uma urgência pessoal em fazê-lo”, lê-se no boletim de subscrição. A apresentação da Trafic obedece a uma lógica de grau zero, não tanto da escrita, mas da própria conceptualização editorial e gráfica. Escolhendo para excluir, parecia que Daney definia toda uma revista a partir do que não queria que ela fosse. Susan Sontag teorizou sobre uma estética do silêncio, associando esta a uma arte empobrecida. Esta “arte empobrecida” está presente desde logo na capa de cada Trafic. Em papel kraft e com apenas uma imagem. Tão visível quanto a vinheta da primeira página são as ideias, isto é, os textos e os seus autores que se elencam como créditos de abertura para um filme em papel que nunca acaba. Críticos, académicos e realizadores escrevem, sem hierarquias, sobre os mais variados temas, sempre a partir do ponto de vista do cinema. Daney procurou desde o início chamar até às páginas da sua revista diferentes tipos de textos (diários, escrita epistolar, traduções, ensaios filosóficos, artigos de cineastas e de romancistas). No texto que abre a primeira Trafic, da autoria do próprio Daney, este publica um diário do ano passado, referente a 1991. De dia para dia, de mês para mês, o crítico dá conta de revisitações, descobertas, exalta os seus heróis e, como gostava de fazer, flana com a escrita por entre ideias, aspirando a uma ontologia da imagem cinematográfica devedora de André Bazin. Por exemplo, quanto a heróis e descobertas recentes, diz de João César Monteiro, cineasta que também participa nessa primeira edição com “um tratamento” sobre A Comédia de Deus, que é um monstro urbano e poeta maldito à escala de Murnau. Refere ainda que Recordações da Casa Amarela foi “o mais belo filme do ano”.
Ora, outro aspecto que se pode verificar olhando para o primeiro como para qualquer outro número da revista é o seu apelo universal. Autores vindos de todos os quadrantes do planeta são convocados, reunindo-se traduções em francês de várias línguas, sendo justo destacar aqui uma: o português. Da mesma forma que o cinema nacional ocupou um lugar especial no pensamento de Daney, este encontra-se muito bem representado nas páginas da Trafic, com textos de autores como João César Monteiro, o habitué da revista Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, Pedro Costa, João Mário Grilo e João Bénard da Costa.
Filmes actuais são analisados em contiguidade com grandes clássicos. A urgência pessoal não conhece constrangimentos temporais. Ao mesmo tempo que Daney escreve pela milésima vez sobre o seu filme favorito, Rio Bravo, aprecia a capacidade de solidão do cinema dos nossos dias. Menciona filmes que estão em sala, tais como Céline de Jean-Claude Brisseau – obra que admira moderadamente – e o mais recente Oliveira. Fala, com incontido entusiasmo, acerca de “um dos mais sumptuosos e ambiciosos filmes dos últimos anos”: Non ou a Vã Glória de Mandar. Escreve: “Manoel de Oliveira. Um homem como uma árvore (…), uma árvore como aquela do início do filme – um dos mais belos primeiros planos da história do cinema”.
A prosa crítica de Daney está cheia de “saltos de tigre” para o passado dados a partir de uma ideia quase benjaminiana de agora. Confidencia, no último texto que escreveu para a Trafic, lançada já na sua ausência no Verão de 1992, que não consegue “boicotar o seu tempo e considerá-lo indigno de si”, como o faz habilmente o crítico Jacques Lourcelles, de quem analisa o seu magnífico Dictionnaire du cinéma. Como escreveu Manoel de Oliveira no texto «Cher Serge Daney», publicado na Trafic (n.º 37) de homenagem ao seu fundador, “Numa palavra, o cinema não foi, e nem sequer começou. O cinema é.” Daney também foi. Também assim é, na sua eterna maison cinéma.
 
Luís Mendonça
Co-editor e co-fundador do À pala de Walsh
Investigador académico na FCSH/NOVA 

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