Textos & Imagens 21



Os eventuais leitores deste texto notarão o seu caráter especulativo, conjetural e hipotético, características que não escamoteamos e que assumimos como condição metodológica sem a qual, como se perceberá, ele não poderia existir. A contingência com que abordamos estes objetos decorre de uma total ausência de informação sobre os mesmos, ou seja da inexistência de referências exteriores, pelo que as zonas de penumbra terão que ser iluminadas através de hipóteses. Estas, como é sabido, são realidades alternativas. Preencher os “buracos” é assim um exercício algo arriscado no que diz respeito ao fora de campo, isto é, às circunstâncias que ditaram e determinaram a sua produção, configuração e difusão pública e que só por acidente ou extensão lhes estão associados. Estabelecidas assim as condições a priori com que olhamos para este duo, importa referir que, não existindo diferenças substanciais entre eles, a não ser a qualidade do papel em que foram impressos e uma discrepância nos respetivos formatos – 70×49,5 cm e 65,5×44 cm –, quase nada os distingue, sendo que esse quase nada nos obriga a uma primeira incursão no caráter especulativo e conjetural a que aludimos no início do texto: nada nos autorizando decisivamente a estabelecer esta distinção, ousamos estabelecer provisoriamente que o objeto número 1 – e, mais uma vez, esta ordenação é arbitrária – poderá ser o original, datado logo de 1946, hipótese sustentada na má qualidade do papel, uma vez que nessa época o papel de qualidade era um bem escasso em toda a Europa, um efeito secundário da crise de abastecimento e de circulação de mercadorias provocada pela II Guerra Mundial. A qualidade do papel melhora significativamente no objeto número 2, que seria assim uma reimpressão realizada quando as condições de escassez se alteraram. Esta hipótese é frágil e facilmente questionável quando atentamos e aceitamos como válida a tiragem declarada: 10.000 exemplares. Esta tiragem exorbitante, indicando um tipo de desmesura que abordaremos mais à frente, dificilmente seria sustentável numa reimpressão. A hipótese alternativa é a da tiragem declarada ser válida para os dois objetos e para a mesma impressão. Se assim for, como explicar as diferenças de tamanho e qualidade do papel?
A excentricidade e estranheza destes objetos não se esgota nessa questão. De facto, as suas características outras alimentam a sua singularidade e, proporcionalmente, o seu fascínio; se as suas dimensões se adequam formalmente às que são comuns em cartazes, o facto de conterem um texto denso, com uma determinada mancha gráfica, disposto em duas colunas, torna-os inusitados nessa função, aproximando-os de um manifesto, edital ou proclamação, características que o conteúdo textual acentua. Por outro lado, exibem a menção “Circular” e contêm no canto inferior direito um cupão de inscrição nas atividades do Jardim Universitário de Belas Artes, indicando adequação a uma distribuição na rua ou em locais selecionados, à maneira de um panfleto publicitário ou manifesto político. No entanto, as suas dimensões contrariam essa vocação: são demasiado volumosos para uma distribuição desse tipo. A nossa hipótese é a de terem sido concebidos simultaneamente para as duas funções: serem afixados e distribuídos, o que nos traz de volta à questão da desmesura da tiragem: teria o JUBA uma legião de voluntários ou de pessoas contratadas para afixar e distribuir 10.000 exemplares? No caso de serem contratadas pessoas para exercer essa função, que meios financeiros tiveram que ser empenhados e como se fazia a logística de toda a operação? Teremos que adiar a resposta a estas questões e voltarmos a nossa atenção para questões substantivas, isto é de análise textual. Antes de o fazermos, convém uma precisão: concordamos com uma formulação de Michel Foucault, segundo a qual é o texto que produz o autor. Nesse sentido, e na ausência de uma assinatura, atribuímos conjeturalmente a sua autoria a Guilherme Filipe baseando-nos nas suas idiossincrasias e nas características da sua escassa produção textual[1].
Como fica patente, partimos do texto para o autor e retornamos ao texto para retirar algumas conclusões da estrutura e natureza do enunciado, começando pelo vocativo inicial e por aqueles a quem se dirige: “A todas as pessoas que cultivam ou amam, as artes, as letras, ou as ciências: A todos os artistas e intelectuais, professores e estudantes, operários e desportistas, cavadores da terra e das almas, trabalhadores do espírito e das fábricas”. Ou seja, todos. Esta totalidade é ainda reforçada no último parágrafo do texto, alargando a convocatória a todos os sectores da sociedade e especificando algumas das profissões a que se dirige: “estucadores”, “pintores da construção civil”, “metalúrgicos”, etc., apelando a uma União Geral dos trabalhadores do JUBA e à sua agregação num organismo de vastíssimo alcance e de uma extrema ambição: estabelecer o seu inventário equivale a cartografar uma reforma profunda da sociedade, erigir um mundo novo, já não sobre os escombros do antigo, mas numa base totalmente nova a partir da qual, através das artes e das ciências, do cooperativismo e da pedagogia, da cultura e do trabalho, se poderiam erradicar a miséria, a doença, a ignorância, a sordidez, o vício e a fealdade. Apenas pelo esforço da vontade, mascarando a dimensão política do projeto, tornava-se possível construir a cidade nova e mudar o curso da História; a Utopia era já ali ao voltar da esquina. Obviamente, escamotear a genealogia política era de toda a conveniência: convinha não alarmar o regime com devaneios, remetendo os ideais emancipadores e libertários para a esfera inócua e inofensiva (?) da cultura e das artes, como se os espíritos vigilantes e os corifeus do regime não percebessem que neste manifesto estava já implícita a perigosa ideia de que o poder, o verdadeiro poder, pertence a outra esfera, difusa mas persistente, tenaz na sua vulnerabilidade, que está sempre aquém e além da macro-esfera do aparelho jurídico-legal, administrativo e repressivo. O caráter revolucionário deste manifesto não se esgota nesta formulação de um verdadeiro poder desafiante dos poderes estabelecidos e supostamente legitimados constitucionalmente; procura afrontar a cultura de peritos, as diversas “epistemes” da Ciência, da Moral e do Direito por um lado, e a autonomização da Arte, por outro, bem como o distanciamento das respetivas esferas do mundo da vida, do trabalho, do quotidiano, negando o acesso privilegiado à verdade por parte de supostas elites e a significância soteriológica de teorias e grandes narrativas estruturantes da sociedade. Apesar do que ficou dito, o tom geral não consegue distanciar-se totalmente de um certo caráter messiânico e salvífico que não procura dissimular-se. Atente-se nesta frase e no seu carácter compósito, combinando os elementos ideológicos e pragmáticos que atrás enunciámos com um propósito metafísico que assume o caráter de mediador entre as diversas forças e dinamismos convocados: “A vida é revolucionar a terra e as almas para semear, colher e repartir. A salvação da Humanidade está nisso. As grandes obras da História fizeram-se com as mãos que trabalham, com os olhos que vêem, com a cabeça que pensa e com o coração que sente. Continuemos assim sem olhar para traz – que chegaremos onde quisermos. Não nos esvaiamos em subtilezas mentais, na apreciação crítica do que não tem significação vital”. Como classificar estas proclamações e o reconhecimento implícito de que o não quotidiano (os conceitos metafísicos de “Humanidade” e “História”) não pode ser imune à irrupção avassaladora e subversiva do quotidiano (o vital)? Como evitar o juízo de estarmos perante uma outra mundividência, uma outra visão do mundo, na qual ecoam ideias humanistas, iluministas, messiânicas, do socialismo ingénuo e utópico, do cooperativismo alternativo, de todas as teorias emancipatórias? O que nos leva a colocar uma outra hipótese: simbólica ou efetivamente, os 10.000 exemplares anunciados poderão ter-se reduzido a estes dois; dificilmente estes enunciados poderiam ter-se compaginado com o clima repressivo do Portugal de então e dificilmente teriam sido tolerados ou admitidos por um regime que tão apertadamente policiava e controlava as consciências.
Por detrás da trama aparente deste texto desenha-se a tessitura do projeto inacabado da modernidade do JUBA. Um projeto inacabado que é, se assim o quisermos, também o projeto inacabado, falhado, incompleto, da modernidade portuguesa no século XX.
 
Arnaldo Mesquita
 
Objeto 1
Tipologia documental: cartaz
Impressão: Tip. Americana, s.d.
Dimensões: 70×49,5 cm
 
Objeto 2
Tipologia documental: cartaz
Impressão: Tip. Americana, s.d.
Dimensões: 65,5×44 cm


[1] A principal fonte na qual esta conjectura se baseia é constituída pela carta endereçada ao MUD em 9 de Janeiro de 1946.

Scroll to Top