Textos & Imagens 20



Foi em Outubro de 1981, ao fim de tarde, que conheci a minha segunda casa.
Ainda nada tinha visto de Murnau, apenas sabia, do que já tinha lido, que era um dos maiores realizadores de sempre, mau grado a curta filmografia, interrompida brutalmente, aos 42 anos de idade, por um acidente de viação cujas concretas circunstâncias nunca foram totalmente esclarecidas.
Já tinha vistos filmes mudos, já me sentia fascinado pelas possibilidades dos silent movies, e até já sabia que Murnau, a esse nível, havia realizado um filme único, quase sem intertítulos – Der Letzte Mann – mas foi só nesse fim de tarde que percebi a verdadeira maravilha que era poder contar uma história de forma intrinsecamente visual, com recurso, essencialmente, a imagens, em que as palavras são meramente acessórias para a dinâmica da narrativa.
Hitchcock – cineasta que me é tão caro – dizia que o verdadeiro Cinema era o mudo, pois começou por ser a arte de contar uma história apenas por imagens e pela capacidade de, utilizando os seus próprios mecanismos, câmara, iluminação, actores, cenários e figuração, torna-la percebível e credível aos olhos dos espectadores.
Sunrise é um exemplo máximo dessa Arte, como, aliás, todos os demais filmes mudos de Murnau, quase todos eles, obras máximas da História do Cinema.
Nosferatu dispensa apresentações pela genialidade da realização, O Último dos Homens é magistral, Tartufo espanta pelo rigor da encenação, Fausto é brilhante no rigor dos enquadramentos e nos espantosos claros-escuros, mas Sunrise é tudo isso junto.
São muitas as suas exegeses, centenas os seus trabalhos de análise, inúmeros os livros que o analisam, pela história, pelos subterfúgios, pelo modo de contar, onde o mesmo é dissecado, plano a plano, fotograma a fotograma.
Nessa medida, apenas quero relatar, um pouco melhor, a impressão que me causou a espantosa história, tão simples nos seus pressupostos e tão singela na forma de ser contada, que quase me faz pensar que qualquer pessoa poderia filmar assim.
O que vi em Sunrise, nessa tarde de 1981, é que ao lado de uma aparente apologia da felicidade doméstica, o filme mergulhava nalguns dos mistérios mais fundos do ser humano, como o amor, o desejo e a culpa.
Modelo maior disto mesmo, é fabulosa panorâmica, num longo plano único, logo no início do filme, em que acompanhamos a viagem de George O`Brien até Margaret Livingston, a perversa mulher da cidade, a erótica e sensual vamp, pelo qual se perde de desejo, admitindo até matar a sua angélica mulher, para poder vender a sua quinta e partir com aquela para a cidade.
É uma sequência admirável, com alguns pormenores absolutamente geniais.
Os arbustos que cedem à passagem de O`Brien, a atmosfera onírica, a sensação de pecado que emerge das imagens e Margaret Livingston a retocar o rosto e os lábios, assim que se apercebe da aproximação daquele, tudo demonstrado de forma exclusivamente visual, sem a protecção de qualquer som.
Depois há os beijos e vamos percebendo – sempre e só, através da força das imagens – o domínio que aquela mulher, vestida de preto (difusamente iluminada, por contraste com a claridade que sempre recai sobre a simples Janet Gaynor), tem sobre a personagem de George O`Brien e a forma como este dificilmente resiste aos seus encantos.
Exemplo paradigmático disso, é como apesar de, ao princípio, se horrorizar com a sugestão que ela lhe faz de matar a mulher, acabar por admitir essa realidade, assim que vislumbra, num espantoso plano sobreposto, a loucura da movida da cidade e as possibilidades que se lhe abrem quando antevê a possibilidade de a gozar com uma mulher tão atraente e apetitosa.
Por isso, gosto tanto desta fotografia.
O`Brien, vergado ao fascínio do mal, irreversivelmente seduzido pela perversidade absoluta daqueles olhos negros, do cabelo preto, do chapéu escuro, da blusa preta, das pernas com meias de rede, dos sapatos de salto alto e de tudo o que este conjunto promete em conjugação com as delícias do mundo da cidade.
Sabemos todos a continuação da história e como O`Brien passará todo o filme a gerir a culpa de ter preparado o assassínio da sua mulher, a procurar redimir-se e como encara o naufrágio desta como uma punição pelo seu anterior comportamento.
Naquela tarde de Outubro de 1981, estava ainda longe de saber que a culpa seria um conceito que me apaixonaria e que me iria perseguir a vida toda em termos profissionais.
Em Sunrise, esse percurso criminal, de luta entre a honesta ruralidade e a maldade citadina, de culpa e redenção, começa nessa sublime sequência inicial, que esta fotografia reproduz parcialmente.
Também foi com Sunrise, que iniciei um percurso do qual me orgulho como pessoa.
Sunrise foi o primeiro dos muitos filmes que vi na Cinemateca, a casa onde aprendi a ver cinema.
Também por isso, Sunrise é um dos filmes da minha vida.
 
Renato Barroso
Juiz Desembargador
 
Tipologia documental: prova fotográfica
Dimensões: 20,5×25,5 cm
Cota: P1-12082


Notas
O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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