Textos & Imagens 2



“A Canção de Lisboa” soa ainda hoje, na sua frescura original, ao ouvido das novas gerações? A resposta pode ser controversa, num tempo que viu “cantigas da rua” serem ultrapassadas pelo karaoke em aplicação informática. Uma coisa é certa: há nomes que nunca morrem; e destes só cito três: Vasco Santana, Beatriz Costa e Almada Negreiros. Por acaso (ou talvez não) estão os três reunidos no filme de Cottinelli Telmo, realizado em 1933.
Há algum tempo que em Portugal se sublinhava a necessidade de adoção de medidas que permitissem o desenvolvimento da indústria cinematográfica e, no contexto dessas reivindicações, é criada em 1930 uma Comissão, nomeada pelo Ministério do Interior, que no ano seguinte apresenta o seu relatório. Nele são apontadas algumas medidas a adotar pelo Estado (entre as quais a criação de um Arquivo Cinematográfico Nacional, o que só viria a concretizar-se com a instituição da Cinemateca pela lei do cinema de 1948) e é sugerida a construção de um estúdio para a realização de filmes portugueses. É então lançado o projeto da Companhia Portuguesa de Filmes Tobis Klangfilm, com a construção do estúdio na Quinta das Conchas, e dá-se início, mesmo antes da conclusão da obra, à rodagem do primeiro filme sonoro inteiramente produzido em Portugal: “A Canção de Lisboa”, realização do arquiteto Cottinelli Telmo com as mais populares vedetas do teatro “ligeiro”, Vasco Santana e Beatriz Costa. A imprensa especializada da época seguia a passo e passo os andamentos das filmagens e pós-produção do filme (em paralelo com o mesmo acompanhamento dado ao filme “Gado Bravo”, da produtora Bloco H. da Costa, registando-se inclusive alguns episódios de “picardias” entre ambos). E é também pela imprensa especializada que o público fica a conhecer os cartazes desenhados por Almada Negreiros, o “português sem mestre” no dizer de José-Augusto França, que faz obra de propaganda sem se negar a si mesmo: “é cinema na nossa língua”, lê-se num dos cartazes; “o primeiro filme português feito por portugueses”, lê-se noutro. Infelizmente desconhece-se o destino do terceiro cartaz, igualmente assinado por Almada Negreiros, que surge publicado no número de 30 de setembro da revista Cinéfilo onde estão representadas as três personagens principais do filme (António Silva, Beatriz Costa e Vasco Santana).
Nunca, como aqui, nos cartazes que persistem, os retratos de Almada foram tão claros na sobriedade das linhas e na eficácia da composição. E só para dar um exemplo, veja-se a utilização da viola de Vasco Santana como elemento condutor do texto. Ou o jogo de cores, em contraste, no manequim de Beatriz Costa. E, culminando o conjunto, a resposta da guitarra de Santana em simetria com o ramo de flores de Costa, caracterizando as respetivas personagens pelos objetos que seguram!
E não será o talento do artista uma das razões que nos dá vontade de rever o filme?

Joaquim Vacondeus

Tipologia documental: cartaz
Autor: Almada Negreiros
Data: 1933
Impressão: Lith. de Portugal (Lisboa)
Técnica: litografia
Dimensões: 115×90 cm
Tiragem: não indicada

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