Textos & Imagens 19



Os manuais técnicos consagraram esta expressão anglo-saxónica pela evidência do seu significado e a universalidade da sua aplicação. Ou seja “um tipo de plano que permite à câmara enquadrar de perto um rosto, ou outro motivo de um modo fechado, mostrando apenas uma parte do objeto focado”.
Não é irreverência, nem sequer anedota, dizer-se que esta manipulação da imagem sempre existiu (antes mesmo da invenção do cinematógrafo, quer-se dizer…). Desde que o olho humano usou as suas prerrogativas anatómicas para olhar em redor, ou aproximar-se ou afastar-se do tema escolhido, que o “close-up” entrou em ação. Foi ele a primeira máquina de registo de imagens, embora tenha esperado alguns séculos para que essas imagens não se perdessem e ficassem registadas num suporte que as conservasse e reproduzisse para partilha com o público: através de equipamentos adequados, onde o olhar passou a ser um elemento exterior à máquina, mas fundamental para as decisões que esta deveria tomar.
Para tornar uma longa história breve (mais uma expressão anglo-saxónica!), os deuses apolíneos fartos das mesmas imagens em movimento (a tragédia, a dança, a ópera, o circo…eu sei lá!) ofereceram ao homem da viragem do século XIX uma invenção que revolucionaria o século que então despertava: o Cinema.
E, como atraídas por um potente magnete, as multidões encheram salas como outrora tinham acorrido aos teatros: a obra de arte que melhor caracterizou o século XIX (a Ópera) passou o testemunho ao século seguinte e ao cinema. Mas se dantes se falava de compositores, agora chamavam-se realizadores, e as prima-donas, agora designavam-se divas, E o público queria saber mais, saber tudo: como se vestiam (ou como se despiam na borda de piscinas); com quem casavam (ou se roubavam os maridos alheios); enfim, banalidades.
E assim surgiram as revistas da especialidade (as fan magazines), a preto e branco e depois a cores, em papel de jornal (na sua maioria) e descartáveis à medida que novos números se editavam. Mas…entre 1927 e 1933 uma revolução – e não pequena – atirou essas revistas para o sótão. Uma publicação de origem suíça, mas redigida em inglês, quase sem fotografias, com uma capa austera de cor unida e só manchada pelos dados essenciais, de publicação mensal, surgiu no circuito para discutir o indiscutível: a razão de ser e a essência do cinema e da fotografia. O editor era inglês e o naipe de colaboradores diz muito sobre o conteúdo da publicação: só no primeiro número, artigos eram assinados por Gertrud Stein ou Man Ray!
O propósito era ligar o cinema às outras artes, comentá-lo, evidenciar as suas filiações e, sobretudo, a sua novidade vista de perto (close-up) e sem artifícios. Para vos dar uma breve ideia do que estava em jogo vou estabelecer um breve paralelo entre os principais temas de cada ano e o que no mundo das artes se cozinhava.
1927 – Destaque para o cinema africano e étnico.
– O cinema cria a projeção multimédia: Abel Gance faz projetar o seu “Napoléon” num tríptico de ecrãs (Polyvision), em abril de 1927 e, claro está, na Ópera de Paris.
1928 – Aparecem as primeiras fotografias. Papel couché, tiragens rigorosas com um brilho e uma definição exemplares para a época.
– A vanguarda russa desenvolve uma estética abstrata para a escultura: Alexei von Jawlensky apresenta a sua “cabeça abstrata”.
1929 – As capas da revista passam a ter uma fotografia no centro da mancha. O realizador soviético Sergei Eisenstein faz publicar um retrato seu com uma elogiosa dedicatória à revista.
– Luis Buñuel e Salvador Dali estreiam “Un chien andalou” em França, unindo as vanguardas espanhola e francesa do movimento surrealista. Bancarota em Wall Street.
1930 – A revista passa a ser publicada quatro vezes por ano. Análise e fotografias do filme “Que viva México” (Sergei M. Eisenstein, 1931).
– Buñuel e Dali estreiam a 28 de novembro “L’Age d’Or”. A 3 de dezembro, membros de um grupo intitulado “Jovens Patriotas” e uma fação antissemita lançam tinta sobre o ecrã e destroem o teatro. O “Fígaro” chamou ao filme “L’Age d’ordure”, e o embaixador de Mussolini apresentou um protesto formal.
1931 – Primeiro artigo, numa revista internacional, sobre o cinema português, da autoria de Alves Costa. Comenta-se o filme “A Vida do Soldado” (Aníbal Contreiras, 1930). Foi em março de 1931.
– Salvador Dali pinta “A persistência da Memória”, talvez o mais famoso óleo surrealista.
1932 – Destaque para o cinema japonês com numerosas fotografias. Artigos sobre o cinema experimental. Fotografias abstratas explorando contrastes de luz e sombras. Destaque para a área cinematográfica da Bauhaus. Fotografias de Moholy Nagy e Oskar Fischinger. Artigos e esboços sobre o trabalho do figurinista no cinema. Os estúdios da UFA e os soviéticos têm igual destaque e descrição.
– Os nazis fecham a Bauhaus e implementam a política da “arte degenerada”. Aos sessenta e três anos, o pintor alemão Paul Klee consegue inovar com a obra “Máscara do medo”, pouco antes de fugir da Alemanha na véspera da subida ao poder do nacional-socialismo.
1933 – A obra de René Clair é examinada em destaque. Alves Costa publica um estudo genérico sobre a situação do cinema português, e comenta o filme “Gado Bravo” (António Lopes Ribeiro, 1934). No final do ano a revista encerra a sua atividade.
 
Em conclusão: quem, à época, ousaria destacar o experimentalismo na fotografia e no cinema, ou publicar estudos sobre o cinema étnico, africano ou mesmo oriental? E o documentário? Alguém daria crédito ao futuro deste género cinematográfico?
Hoje, na coleção da Cinemateca Portuguesa, esta obra é uma pérola barroca rara que se deve à curiosidade e à visão do seu colecionador: Manuel Félix Ribeiro. Sei, de fonte segura, que estudiosos do cinema cortariam uma das mãos para agarrar tão precioso espólio…Mas isto é já outra história.
 
Joaquim Vacondeus 
 
Tipologia documental: publicação periódica
Datas de publicação: 1927-1933
Cota: PP 92
Nível de descrição: catalogação
Notas: colecção incompleta (falta nº 1)

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