Textos & Imagens 18



A revista Wide Angle foi publicada entre 1979 e 1999 pelo Ohio Department of Film of The College of Fine Arts e pelo Athens International Film Festival, tendo como editor Peter Lehman. Na realidade, como explica o editorial do número 1 de 1979, esta publicação foi concebida como uma extensão das “notas” redigidas a partir de 1976 para o Athens Festival, evoluindo para a forma ensaística que manteve até ao fim. É por essa razão que a capa do número 1, volume 1 exibe a legenda “Take 2”: o primeiro volume retoma os textos escritos para o Festival, que são revistos, aumentados e aos quais se juntam adendas pelos punhos dos respetivos autores.
De uma forma geral, a revista resulta de um esforço cooperativo no seio da instituição universitária, contando com arranjos gráficos produzidos pelos estudantes do Ohio University Graphic Design Department (que nada ficam a dever a trabalhos profissionais em publicações congéneres) e o pleno apoio do Departamento de Cinema, orientando-se toda a empresa para o estabelecimento de um padrão de exigência capaz de forjar uma cultura cinematográfica assente justamente nas categorias canónicas da investigação académica. No entanto, o conselho editorial não procurou apenas no “campus” o material a publicar, indo buscar ao universo alargado da reflexão e da produção de conhecimento de todas as universidades americanas os ensaios, artigos e recensões que a haveriam de estabelecer como uma das mais sólidas publicações do género. Aliás, se percorrermos a lista de autores que colaboraram com a revista, deparamo-nos com nomes como Kristin Thompson, Richard Abel, Marie-Claire Wuillermier, Tadao Sato, Tom Gunning, Patrícia Aufderheide, Carl Planting e muitos outros que, nas décadas seguintes, haveriam de constituir a vanguarda da construção de uma teoria cinematográfica especificamente norte-americana, numa era em que a produção teórica universitária nos EUA ainda não se tinha tornado avassaladora como veio a ocorrer a partir de meados dos anos 80 com uma avalanche de publicações oriundas dos Departamentos de Cinema universitários, “contaminadas” pela metodologia das Ciências Sociais e Humanas e navegando nas águas alterosas das correntes de pensamento politica e sociologicamente determinadas pelas novas agendas ideológicas do pós-modernismo: Multiculturalismo, Transculturalismo, Pós-Colonialismo, Feminismo, etc.
Retornando à especificidade da Wide Angle, importa referir que o caráter eclético e sincrético da sua linha editorial se manifesta não só no elenco de colaboradores – que inclui para além das personalidades atrás referidas, discentes e docentes da instituição – como também na alternância entre números que reúnem textos de temática variada e números monotemáticos dedicados à estética, história e prática cinematográfica, procurando permanentemente o equilíbrio entre a historiografia – sendo que o cinema é sempre enquadrado na sua historicidade -, a análise das novas tendências e a relação do cinema com outros textos e práticas culturais. Importa também referir que, em plena febre estruturalista, a Wide Angle começa a questionar o tipo de abordagem estritamente estruturalista, considerando o colapso da rigidez estrutural na teoria cinematográfica, especialmente na produção académica europeia, e problematizando as áreas lodosas dessa mesma produção textual. Este novo questionamento do estrito modelo estruturalista aponta para a necessidade de reavaliação e reconsideração da problemática da fenomenologia e da sua aplicação ao cinema, uma tendência já observável em artigos produzidos em 1978, tendo a sua origem em questionamentos de Dudley Andrew que, noutro lugar[1], tinha já colocado a hermenêutica de Paul Ricoeur como ponto de partida. A fenomenologia e a hermenêutica de Paul Ricoeur nas planícies do Ohio? Exatamente, mas apenas como ponto de partida, convém sublinhar. O exame de todos os estilos e períodos históricos empreendido pela revista não se esgota nesse modelo; decorre acima de tudo de uma pragmática formal e de uma autonomização das esferas de valor do objecto-cinema que o reenquadra numa racionalidade que se situa para além dos ferozes debates em curso, sobretudo nesse fim dos anos 70 em que a revista surgiu, debates que encenavam o antagonismo entre o inconsciente, as estruturas económicas, simbólicas, o contextualismo e o relativismo, enfim, os campos de batalha onde a contemporaneidade procurava afirmar a sua legitimidade pós-metafísica. Aliando uma certa convencionalidade dos procedimentos a uma determinada e sólida cultura da racionalidade argumentativa, a Wide Angle posicionou-se como uma das pedras fundamentais na construção da cultura cinematográfica da segunda metade do século XX, eticamente inatacável e estruturalmente inadiável.
Os volumes da revista publicados entre 1979 e 1999 encontram-se disponíveis para consulta na Biblioteca da Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema.
 
Arnaldo Mesquita
 
Tipologia documental: publicação periódica
País: E.U.A.
Datas de publicação: 1979-1999
Cota: PP 528
Nível de descrição: indexação artigo a artigo


[1] ANDREW, Dudley, “The Gravity of Sunrise”. In Quarterly Review of Film Studies, vol. II, nº 3, 1977. Disponível em linha em www.tandfonline.com

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