Textos & Imagens 15



Há casos assim: de filmes que não existem chegam até nós alguns dos seus vestígios, evocações de uma outra história, subterrânea e silenciosa, que também importa contar. Neste caso: de um filme que Jorge Brum do Canto não chegou a terminar, conservam-se na Cinemateca alguns dos seus vestígios – um guião muito fragmentado, um conjunto significativo de fotografias de rodagem e retratos promocionais dos seus intérpretes, e os desenhos que aqui destacamos, provas da intencionalidade criativa do cineasta e da equipa que nele trabalhou, não obstante o modo de existência dessa obra ter permanecido na virtualidade sem se transformar em realização.
Do filme, Paisagem, a informação disponível é, dada a sua incompletude, naturalmente escassa. José de Matos-Cruz informa-nos que o filme foi “suspenso, por motivos financeiros” e que “apenas subsiste, ao que se sabe, material incompleto com 232 metros” (In O Cais do Olhar). E pelas mãos do próprio realizador, em artigo de resposta parcialmente publicado na revista Cinéfilo de 19 de março de 1932, ficamos a saber que “não atravessa um período de crise, nem necessita de assistência: tem estado apenas a dar lições de canto e dicção para em breve ser terminada em sonoro”. Não o seria, e não o sendo remeteu também os “traços” da sua intencionalidade para um silenciamento ou desconhecimento inevitavelmente superior ao que teriam caso tivesse sido realizado.
E se por isso se poderá dizer que estamos aqui perante uma ausência e uma presença (o filme inacabado, qual casa vazia que se manifesta pela sua própria inexpressão e que figurará como elemento central instituinte dos documentos a ele associados, e estes enquanto alguns dos seus traços), não dizemos que estes sejam “representações” mas antes “evocações” pois que embora possam também, indiretamente, tornar presente o que não o é, não são apenas “imagens” do filme mas antes recordações de uma coisa esquecida. Porque de facto, e apesar da ligação natural e mesmo “umbilical” ao filme (ligação essa que é inclusivamente expressa em termos das operações de tratamento documental pelo próprio ponto de acesso “obra fílmica” criado e associado a cada um dos documentos para a sua descrição e posterior recuperação da informação), estes não estão “em vez de” mas antes “para além de”.
Recorde-se a este propósito que, se nos últimos anos se tem generalizado (e a isso não somos alheios) o uso da expressão “filme e não-filme” – numa espécie de exercício linguístico que inclui simultaneamente um objeto e o seu reverso… – para designar, de forma clara e eficaz tanto para especialistas como para leigos, o universo de coleções que, desempenhando um papel importante na constituição e preservação da cultura cinematográfica, são por isso abarcados nos processos de recolha das cinematecas, a explicitação desse conteúdo faz-se precisamente a partir das noções espácio-temporais de “aquém e além filme”.
Na primeira noção englobar-se-ão assim itens como câmaras e todos os equipamentos utilizados no ato de filmar e os chamados “arquivos de criação” (os story-boards, guiões ou planificações, os desenhos de cenários e figurinos, etc.); na segunda, os documentos que, sendo posteriores à rodagem e produção do filme, demonstram ou são capazes de demonstrar o impacto dessa obra na história do cinema, como é o caso dos livros, revistas, recortes de imprensa, cartazes, fotografias promocionais, etc. E, como é referido no documento A Digital Agenda for Film Archives (2012), “Se as coleções documentais são frequentemente o único traço sobrevivente de muitos filmes, estas coleções contêm obras de arte de direito próprio que exigem também uma atenção especial de modo a ser devidamente preservadas e contextualizadas”.
E por isso este leque de itens (objetos, documentos…), que não são “restos” mas quase “relíquias” no sentido litúrgico do termo, reúnem em si mesmos um vasto conjunto de valores. Testemunhos privilegiados, a sua qualidade baseia-se também no facto de deterem, cada um individualmente, valores intrínsecos quer seja pela sua exemplaridade e autenticidade, quer seja pelo seu valor simbólico (na medida em que, perdendo a sua utilidade primária, o objeto se torna portador de significado) e, finalmente, pela sua relevância estética – porque, como se diz no catálogo da retrospetiva da obra do cineasta editado pela Cinemateca em 1986, onde foram publicados os quatro desenhos que aqui se destacam, “entre as várias ‘cordas do seu arco’, uma há também que apontar. De facto, Jorge Brum do Canto também sabe desenhar…”.
 
Teresa Barreto Borges
 
Tipologia documental: desenho
Dimensão, Cotas (da esquerda para a direita, de cima para baixo):
25×16 cm; CH1/40 (reg. 8211)
25×16,5 cm; CH1/44 (reg. 8215)
25×16,5 cm; CH1/41 (reg. 8212)
20×13 cm; CH1/43 (reg. 8214)

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