Textos & Imagens 14



Comecemos por perceber o que dizem Kobal e Wilson sobre o cartonado (termo português), o outrora popular lobby card. Os mais remotamente conhecidos, de 1908, seriam peças bi-cromáticas ou a sépia e, de mera reprodução de fotogramas teriam evoluído para o uso de ilustrações tendencialmente apelativas em torno de imagens dos respetivos filmes. O cinema sonoro terá provocado o advento do chamado talkie card, com reproduções de linhas de diálogo dos atores e seus personagens reproduzidos no cartonado. A cor, naturalmente, fez a sua entrada em grande estilo, e mesmo filmes de fotografia preto e branco foram promovidos por cartonados de efusivo cromatismo. E claro, este tipo de objeto promocional não ficaria alheado do star system, impondo o destaque do principal elenco, em fonte maior ou menor, consoante o estatuto dos intérpretes, o mesmo aplicando-se a realizador, produtor, distribuidora, casa de produção ou o uso de Technicolor, constituindo-se, de modo geral, conjuntos de 4 a 8 cartonados por filme. Dizem-nos os autores que o lobby card, no início da década de ’40, sofre uma mudança para o estado de menos apelativo, correspondendo a um período de esforço de guerra, mas também (ou por isso mesmo), de desinteresse dos executivos por este material promocional. É já nos anos ’70 e ’80 que terão tido uma reavaliação – e reutilização – enquanto forma essencial de promoção de filmes.
O cartonado que agora nos ocupa é do imediato pós-guerra. Enquadra-se por isso numa fase de utilização de menor importância e de menor trabalho gráfico. Todavia, ter-se-ão que salvar as devidas distâncias físicas e económicas. Podemos verificar, num fenómeno que também teve lugar do outro lado do Atlântico, que a ilustração desaparece para dar lugar a um destaque que é feito pela via fotográfica, apelando ao espectador para mais imediata identificação com cenas, atores, enfim, com o que se escolhe promover. Mas terá a ilustração desaparecido completamente? A resposta é negativa. E neste quadro, surge a pertinência do realce que se tem que dar ao nome e à figura do seu realizador. Mas comecemos pelo filme.
Trata-se de uma história de um amor quase impossível entre o prevaricador e a virtuosa, pontuada por crime e paixão, tantas vezes de mãos dadas na sétima arte. Todavia, quase nunca (este será a exceção) o terreno raiano da serra algarvia foi palco de enredos cinematográficos desta natureza, muito menos com um pano de fundo como o contrabando praticado por muitos homens e mulheres da região de Alcoutim. A esta narrativa, corresponde um discurso fidelíssimo em termos sociológicos e antropológicos, tal como notou e demonstrou o investigador Emmanuel Correia. Do guarda-roupa à decoração de interiores – e exteriores, essencial para o Algarve de leste –, da profusão de adereços à exploração das atividades lúdicas, Emmanuel Correia analisa de que modo o realizador foi extremamente rigoroso na abrangência do aspeto visual do filme. A interpretação conta com figuras de experiência no Cinema, mas casos sérios no Teatro como Emílio Correia, Maria Emília Vilas ou Mário Santos, este de uma família de grande nome e tradição na representação. João Perry, pai do atual do mesmo nome, o qual se recorda de ter estado com o pai em rodagem em Alcoutim. Ainda Eduarda Gonzalo, olhanense de nascimento que Porfírio quis transformar em atriz. Produção e distribuição da Filmes Castello Lopes, aspetos também realçados no cartonado, mas sobre os quais há algo mais a acrescentar.
Agostinho Fernandes, através da sua atividade como industrial, teve a oportunidade de servir como Mecenas, a quem se fica devendo a sua visão e entusiasmo pelas artes. Vários foram os artistas oriundos do Algarve que a este recorreram para projetos vários. Protegidos por ele encontram-se Bernardo Marques, Roberto Nobre ou Carlos Porfírio, que são também os nomes mais recorrentes nas ilustrações em edições da Portugália Editora de que Fernandes fora fundador. Mas o cinema também deve algo ao industrial, financiando vários projetos de cineastas próximos do seu seio. O portimonense Armando de Miranda foi responsável por grandes sucessos de bilheteira – Capas Negras e José do Telhado – enquanto o farense Porfírio assinou dois filmes de clamoroso prejuízo – Sonho de Amor e Um Grito na Noite – este último estreado em fevereiro de 1948. Ambos fazem perder a Agostinho Fernandes muitos milhares de contos, estando considerados perdidos durante décadas e, no que respeita a Um Grito na Noite, são encontrados os seus materiais fílmicos nos depósitos da Tobis já nos anos ’80. A Cinemateca, procedendo à sua preservação, acaba por levar a cabo a sua exibição no dia 24 de maio de 1984.
Enquanto cineasta, e como atrás se referiu, Porfírio assina apenas um outro filme, de caráter estético absolutamente distinto. Mas o artista é um dos protagonistas de uma movida (chamemos-lhe assim) modernista ocorrida na sua região-natal, centrada num eixo Faro-Tavira, em clara cumplicidade com as vanguardas ocorridas em Lisboa, de que são protagonistas, sobretudo, Bernardo Marques, Roberto Nobre, João Lúcio e Porfírio. É por este facto que este último é chamado a ser o editor da Portugal Futurista, revista que, por sinal, anunciava apenas dois locais de venda: Rua do Ouro em Lisboa e, pasme-se, a cidade de Faro. É significativo que o termo Futurismo tenha a sua entrada em Portugal enquanto palavra escrita e impressa no jornal O Heraldo, que na altura se editava na cidade de Tavira. E nesta cidade, o futurismo floresce como em nenhum lugar em manifestações arquitetónicas através de elementos como as platibandas, as quais pendem entre este movimento e os losangos moldados pela Art Deco. E como se não bastasse, a proximidade de Fernando Pessoa com o sotavento algarvio é passível de especulações sobre toda esta movida, defendida por Jacinto da Palma Dias e demonstrada academicamente por Patrícia de Jesus Palma.
Que nos perdoem os leitores pela sucinta dissertação por esta movida modernista do Algarve, mas a mesma pretende fazer realçar de que modo Carlos Porfírio é relevante neste contexto. O que tem tudo isto a ver com o cartonado – o lobby card – de Um Grito na Noite, filme por si realizado? Da Portugal Futurista até ao filme em questão decorrem três décadas. Entre uma e outra, o profícuo artista não deixou de desenhar, de ilustrar publicações, de pintar, sendo notória figura da cena pictórica portuguesa dos anos ‘40. Se escolhermos acreditar – e observar – pode ser que se perceba, neste cartonado, uma tímida réstia de um futurismo desaparecido, mas que ainda procura dinamizar-se no “Grito!” do título, tentando, simultaneamente, ecoar nos cantos do lobby card

Luís Gameiro
Técnico superior de arquivo, Departamento ANIM
 
Bibliografia:
– Correia, Emmanuel, Carlos Porfírio Cineasta, Edições Colibri, Lisboa, 2001.
– Dias, Jacinto Palma, Estéticas e Inestéticas, Fornalha, Castro Marim, 2015.
– Kobal, John / Wilson, V.A., Foyeur Pleasure: The Golden Age of Cinema Lobby Cards, Aurum Press, Londres, 1982.
– Rosa, Viterbo, “Algarve Volta a Ter ‘Um Grito na Noite’”, in Correio da Manhã, 16 de Maio de 1984.
 
Tipologia documental: cartonado
Dimensões: 31,5×41,5 cm

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