Textos & Imagens 13



Uma fotografia é um documento. Os documentos foram feitos para serem lidos…logo uma fotografia também pode ser lida. E esta, sem dúvida, fornece uma boa leitura.
Não estou a referir-me a algo de muito complicado; os historiadores do cinema e os críticos fazem-no vezes sem conta. E para nos facilitar a tarefa, criaram os géneros cinematográficos que são mapas para nos orientarmos no universo da vasta produção fílmica de todas as épocas e de todas as latitudes. Nasceram assim os peplum, o film noir, o cinema vérité… mas neste caso escolhemos uma outra tipologia: o filme maldito.
Este documento – mesmo se não reconhecermos o filme – diz-nos que se trata de uma grande produção. Enfim…um filme colossal, um grande espetáculo e com grandes vedetas. Ora aí temos a primeira pista: trata-se de Elizabeth Taylor, num cenário de fantasia e com muitos figurantes à sua volta. O filme foi estreado em 1963 e custou (à época) 40 milhões de dólares; cerca de 450 milhões de contos na nossa moeda de então.
 É claro, já cá faltava a informação essencial: o filme chama-se Cleópatra, e foi, até à estreia de “Titanic”, considerado o mais caro filme de sempre.
Nas décadas de cinquenta e sessenta, os estúdios enfrentaram rudes provas: a concorrência da televisão, as salas de exibição quase vazias, os distribuidores enfurecidos e a ameaça das produções de grande espetáculo vindas de outros países. Um dos maiores, a 20th Century Fox, precisava urgentemente de um desses colossos, projetados em 70mm, para dourar a sua imagem. Vasculharam-se os arquivos e saiu Cleópatra – que já tinha sido feito no mudo – como promessa de salvação. Mas o guião do mudo, claro está, era inadequado, e os tempos exigiam diálogos, música, magia e uma grande vedeta para a mítica rainha do Egito. Fizeram-se vários testes com as atrizes da Fox (nada de muito relevante) até que um produtor associado, Walter Wanger, se lembrou que a Taylor tinha acabado uma anterior fidelização com outro estúdio. “É isso, a Taylor dava uma Cleópatra ideal”. Um simples telefonema e Elizabeth, que gozava a recente liberdade respondeu em ar de brincadeira “digam-lhe que aceito por um milhão de dólares”…e ele respondeu “muito bem; assinamos o contrato”. Nunca uma atriz tinha ganho tal fortuna por rodar um filme. E aqui começaram as fofocas nas revistas da especialidade.
A partir daí foi uma derrocada pela estrada do precipício. O filme começou a ser rodado em Inglaterra, até que o clima destruiu os cenários. A Taylor teve uma reação alérgica e ficou sem poder respirar. Fizeram-lhe uma traqueotomia e até o clínico da Rainha a assistiu. As seguradoras, depois deste e outros episódios de doença da vedeta, recusaram-se a segurá-la. As filmagens mudam-se para Roma (Cinecittà) e não só: o realizador foi substituído por Joseph L. Mankiewicz, que achou péssimo o material já rodado e quis começar do zero.
Os patrões da Fox começaram a ficar impacientes com todas estas delongas e, Mankiewicz, para mostrar obra feita, rodava de dia e escrevia as cenas do dia seguinte de noite, com perda de economia de recursos uma vez que o filme decorria por ordem cronológica, não olhando a economias. Para assegurar a tarefa o realizador levava uma injeção estimulante de manhã e uma com um sedativo para dormir.
Mas tudo isto é uma brincadeira até ao momento em que o ator escolhido para o papel de Marco António, Richard Burton, apareceu. Na realidade, tanto a Taylor como o Burton estavam em Roma com os respetivos conjugues. E bastou um pouco de “dolce vita” para caírem nos braços um do outro, de tal forma que uma vez gritada “ação” não se distinguia a representação da vida real. Exit os traídos companheiros e, pela mesma porta, entrou uma inundação de repórteres das revistas de coração (uma fotografia do par em fato de banho ou apanhando sol num iate valia o orçamento do Vaticano). Vaticano esse que, farto de tais atentados à boa condução do matrimónio, excomungou o par, o que resultou num aumento da venda das revistas.
Voltando à nossa fotografia: a cena representa a entrada imponente da Rainha em Roma, no meio de dançarinas de Ísis e pombas saídas de pirâmides o que, na boa da verdade, é a cena mais espetacular do filme. Uma gigantesca esfinge abraçava entre as patas  o trono de Cleópatra com o seu filho Cesarion que, para descerem do trono, eram transportados numa cadeira apoiada num estrado basculante segurado por núbios, um processo engenhoso de os manter na horizontal ao descer a escadaria. O povo de Roma, ou seja os milhares de figurantes que assistiam à cena deveriam gritar o nome da Rainha; mas o que aconteceu deixou o plateau em transe: em vez de gritarem o real nome, em uníssono coro, gritaram, Lez, Lez, Lez…
Nesse dia, Elizabeth Taylor levou a melhor ao Papa, e segundo os sociólogos, foi assim que a revolução sexual dos sessenta começou. Seguiram-se produtos de beleza, vestidos, penteados, traços a negro nos olhos, enfim, parecer Cleópatra era a grande tendência da moda para as elites, e foi o “volte face” que fez desaparecer dois mil anos de História.
Os custos laterais foram elevados: seguiu-se uma guerra entre patrões da Fox e realizador sobre a duração do filme: no total, seis horas de projeção. A Fox ganhou. Uma primeira montagem tinha quatro horas, mas a versão internacional que todos viram foi reduzida a três. Mankiewicz nunca recuperou da humilhação; a partir dessa data jamais em circunstância alguma pronunciou o nome do filme ou ousou comenta-lo.
Forçado a assistir à estreia em Londres tinha como companhia a Taylor, igualmente convocada apesar duma tentativa de boicote. Esta, durante o visionamento, deixou a sala e foi à casa de banho vomitar: o melhor do seu desempenho tinha sido pura e simplesmente ficado no caixote do lixo da sala de montagem.

Joaquim Vacondeus
 
P.S. Então porquê maldito? Porque todas as demoras e extravagâncias da rodagem quase que levaram a Fox à ruína. O filme não ganhou os Óscares esperados e as receitas não cobriram o investimento. Isto recorda-nos outro filme – mudo – “Metropolis” de Fritz Lang que, embora por outras razões, também arrastou a produtora (a célebre UFA) para a quase bancarrota.
Mas a História vingou os filmes. Hoje, décadas passadas sobre estes acontecimentos, esforços foram feitos para repor as partes mutiladas, com algum sucesso em ambos os filmes. Edições comerciais de venda segura, programações em cinematecas, debates sobre a restituição do original…Tudo isto fez girar a polémica e hoje (estes e muitos outros com igual destino) já não são malditos, mas sim (e merecidamente) filmes de culto…

Tipologia documental: prova fotográfica 
Tipo de obra: fotografia de cena
Dimensões: 25x5x20,5 cm

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