Textos & Imagens 1



Sob a autoridade intelectual e a tutela moral de André Bazin, nascia em 1 de Abril de 1951 a revista “Cahiers du Cinema”. Bazin – sem dúvida, o mais importante e influente teórico do pós-guerra – tinha vindo a construir o seu pensamento em torno do complexo, controvertido e muito discutido conceito de “ontologia da imagem fotográfica” e de uma noção que haveria de percorrer um longo caminho e conhecer numerosas e frutíferas ramificações: aquela que postulava que o estilo de um cineasta devia tanto à ética quanto à estética. Por outro lado, a sua postura crítica, altamente idiossincrática, determinava que um filme devia ser dissecado, desmontado e analisado sob diversos ângulos até se tornar inteligível, exigindo que as próprias metodologias e instrumentos de análise constituíssem um horizonte de inteligibilidade indiscutível. E logo nesse número inicial se identifica essa preocupação pedagógica, mantida ao longo de toda a “série amarela”, senão mesmo depois de os “jovens turcos” terem tomado o poder e criado os tumultos que se conhecem, prolongando-se pela fase guerrilheira dos excessivamente politizados e absurdamente radicais anos 70. De qualquer forma, foi com base nesta cartilha, revista e atualizada, que os “Cahiers du Cinéma” cartografaram o cinema dos anos 50 e das décadas posteriores, construindo de raiz uma cultura cinematográfica à escala planetária. Quando um dia se estabelecer uma história comparada das revistas de cinema, verificar-se-ão as crises, os erros de juízo, os excessos de linguagem, o fundamentalismo de algumas afirmações e a abusiva combatividade, mas, sobretudo, iremos descobrir aquela identidade e aquele carisma que permanece constante em todas as metamorfoses, as suas horas de glória, tudo aquilo que a singulariza e distingue das rivais; tudo o que a torna um ícone imediatamente reconhecível, mesmo para aqueles que nunca leram uma linha. Seria exagerado e abusivo dizer que os “Cahiers” inventaram tudo e tudo descobriram; quem estiver minimamente familiarizado com a literatura cinematográfica da época descobre imediatamente as influências recíprocas, o trânsito de perspetivas, modos de abordagem e filiações; mas seria de manifesta má-fé não considerar que a “montagem” de todos esses elementos deu origem a um outro paradigma, radicalmente novo, no panorama do universo crítico e teórico que, tendo apostado tudo na “mise-en-scène” em detrimento do “tema” aparente dos filmes, descobriu os arcanos do cinema de autor e da sua teoria.
Voltando ao início dos inícios, a primeira capa exibe Gloria Swanson numa cena do filme “Sunset Boulevard” de Billy Wilder, numa pose que faz lembrar a figura de proa dos antigos navios: rosto, corpo, vulto, estátua iluminada, apontando aos navegantes o caminho a seguir e, tal como essas figuras tutelares, protegendo-os dos monstros. A mesma actriz, representando no mesmo filme, reaparece no editorial que é, todo ele, um programa: revela que a nova revista é pensada como um prolongamento de “La Revue du Cinéma”, desaparecida em 1949 e dedicada à memória de Jean-George Auriol, seu fundador. Ao nome de André Bazin, juntam-se os de Josef-Maria Lo Duca, Jacques Doniol-Valcroze e Alexandre Astruc no núcleo duro, pensadores que transformam a revista num verdadeiro manifesto crítico de combate à mediocridade do cinema institucional e da respetiva crítica, convencional e conformista, originando uma nova grelha percetiva e conceptual, da qual se destaca o artigo “Pour En Finir Avec La Profondeur de Champ”, obviamente assinado por André Bazin, texto que o revela como um pensador de rara profundidade e complexidade quando demonstra que registar a realidade e desenvolver os efeitos do real permite ao cinema fazer emergir a verdade íntima dessa mesma realidade, justamente aquilo que designou como “verdade ontológica”. Compreender este teorema é compreender a essência do cinema.
De resto, este número inicial é também uma festa para o nosso sentido visual: das 78 páginas que o compõem, 20 são dedicadas a magníficas fotografias (muitas vezes sem qualquer relação evidente ou lógica com textos e críticas, reproduzidas apenas pelo prazer que suscitam e pelo seu poder de evocação e atração) e a publicidade da época, toda ela um programa à parte que vale pena contemplar.
Por último, falta dizer que, de diversos modos, os “Cahiers” se tornaram uma espécie de meta-revista, ou seja são em si mesmos uma reflexão sobre o que deve ser e que lugar deve ocupar uma revista de cinema e que essa intenção está já inscrita no ato fundador que este primeiro número materializa e que se prolonga por todas as suas fases (“série amarela”, nova vaga, estruturalista, freudiana, comunista, maoísta, deleuziana, recentrada, etc.). Cada leitor escolherá a sua e o resultado será o mesmo; genericamente, estão todas condenadas à excelência.

Arnaldo Mesquita

Tipologia documental: publicação periódica
País: França
Datas de publicação: 1951 –
Cota: PP 8
Nível de descrição: indexação artigo a artigo

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