Os Motivos de Reinaldo de Ricardo Vieira Lisboa



OS MOTIVOS DE REINALDO
de Ricardo Vieira Lisboa
Portugal, 2018 – 9 min

Complemento de O Táxi n.º 9297 (1927), edição DVD Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema (2018).

Reinaldo Ferreira (1897-1935) foi “o nosso maior repórter” (Luís de Pina). Assinou muitos dos seus textos com o pseudónimo Repórter X, que também foi o nome da efémera produtora cinematográfica que dirigiu em 1927 e para a qual escreveu e realizou vários filmes. O Táxi n.º 9297 (1927) dramatiza um caso que abalou o país e que Ferreira investigara em várias reportagens: o homicídio da atriz Maria Alves pelo seu empresário Augusto Gomes. Inspirado pelos serials de mistério europeus e americanos, O TÁXI N.º 9297 é um documento singular sobre a sociedade e a cultura portuguesas nos anos 1920.

Acompanhamento musical ao piano composto e interpretado por Filipe Raposo.

“(…) Este ensaio audiovisual foca-se nas recorrências da obra cinematográfica de Reinaldo Ferreira. A saber: os modos como o realizador se apropriou dos modelos do cinema burlesco norte-americano e dos seriais de mistério alemães. O resultado, ora uma comédia de enganos que desmonta os papéis sociais (do homem, da mulher, do patriarca, da solteira e do criado negro) do Portugal do início do século; ora um policial (film noir avant la lettre) que, de novo, se constrói ao redor de uma sucessão de identidades trocadas. Reinaldo trabalha estas complexas tramas narrativas a partir de um dispositivo cénico em particular que, já de si, reflete esse emaranhado: o corredor e as portas que nele se abrem e fecham. Em articulação, Reinaldo explora uma mise en scène feita da obscuridade, optando frequentemente por uma escala de planos que ora é muito aproximada, ora se distancia em demasia. Disto resulta que de longe não sabemos que identidade se esconde debaixo do disfarce, e de perto só conhecemos o disfarce sem a identidade. Em particular, há um desses motivos que se destaca pela força plástica: as mãos. Nelas revelam-se múltiplas significações, por serem figuras sem referente, onde as marcas de género e classe social (e etnia, de certo modo) estão ausentes – sendo portanto excelente pretexto para Reinaldo instalar o pandemónio. Por tudo isto (e mais algumas coisas) a sua obra é um marco histórico fundamental e importante fonte sobre os costumes da sociedade portuguesa antes da implantação do Estado Novo. Essa é, aliás, a qualidade mais forte desses dois filmes: os modos como o tumulto do burlesco (ou a tensão da história de detetives) coloca tudo em causa e nos leva a questionar todas as convenções a favor de um desmascaramento paulatino e exaustivo das figuras e papéis sociais de uma época, ela própria, em profundo rebuliço (como a nossa). Com este “Os Motivos de Reinaldo” procurei brincar com estas recorrências de modo simultaneamente didático e dessacralizado. Isto porque o exercício do ensaio audiovisual é um onde a desfragmentação da obra está intimamente ligada à ideia de jogo infantil (da criança que destrói o brinquedo preferido). Um jogo que o convido a jogar. Para isso deixo uma misteriosa pergunta: ‘Você acredita na voz dos objetos?’”.

Ricardo Vieira Lisboa


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