Textos & Imagens 50



Em 1946, saía do prelo da Tipografia Portuguesa, em Lisboa, o primeiro e único volume de Anuário Cinematográfico Português, publicado pelas Edições Gama (editora fundada em 1940 como sociedade por quotas, reunindo diversos nomes ligados ao Integralismo Lusitano), com direção de Cunha Ferreira e coorganização e direção gráfica de João Mendes. 
Coincidindo com o primeiro cinquentenário das projeções de cinema em Portugal sem que, contudo, tal facto seja de algum modo referido nas suas páginas, a publicação apresenta um plano que não deixa de constituir uma espécie de balanço do que até então se fizera no nosso país.  
Tratou-se de um projeto ambicioso que, programaticamente, optou por não se limitar a seguir o modelo tradicional dos anuários como guias profissionais (“registo compacto de nomes, firmas, moradas”) mas antes alargar o âmbito da sua “utilidade” através de um “repositório de depoimentos de intelectuais e técnicos, acerca de um sector nacional que tem de desenvolver-se, custe o que custar, para bem dos interesses espirituais e económicos da Nação” (do editorial, p. 9). Justificava-se essa ampliação do âmbito como forma de não se cingir o seu interesse ao meio profissional, reconhecidamente reduzido, podendo assim interessar também a outro público que, embora alheio à indústria cinematográfica, “é um curioso dos seus problemas” (idem). 
O plano da obra divide-se assim em sete secções (divisão atribuída de acordo com o destaque tipográfico impresso no índice da obra e graficamente assinalada com vinhetas, ou ornatos, alusivos, sobretudo variações em torno de três temas centrais “globo terrestre”, “livro” ou “texto” e “tempo-cronologia”), a primeira das quais, O Cinema no Mundo, contém os artigos “O problema espiritual do cinema”, da autoria do jesuíta Abílio Martins, e “O caminho do cinema”, por António Lopes Ribeiro. A secção seguinte, O Cinema em Portugal, é de todas a que conta com mais contributos, entre os quais Leitão de Barros que, em “Passado, Presente e Futuro do Cinema Português”, coloca questões quanto à possibilidade de existência de uma indústria cinematográfica em Portugal e sobre qual deverá ser o papel do Estado; Domingos Mascarenhas, que apresenta as condições que considera necessárias para a existência do cinema português em “Missão, Necessidade e Possibilidades do Cinema Nacional; Luís Dias Amado, que descreve o potencial das coproduções entre Portugal e Espanha; Roberto Nobre, sobre a crítica de cinema; Fernando Fragoso sobre as salas (cinemas, teatros e cine-teatros) e, entre outros, Adolfo Coelho, que escreve sobre o “Cinema Cultural”.
A terceira secção é composta exclusivamente pelo “Panorama Histórico do Cinema Português”, da autoria de M. Félix Ribeiro, narrativa em 44 páginas que traça sinteticamente o percurso do cinema português desde que, em 1896, Aurélio da Paz dos Reis “trouxe Portugal para o número dos primeiros países que, no mundo, produziram filmes” (p. 73) até 1944 e os três filmes produzidos nesse ano, num “formato” que antecipa o de Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português, 1896-1949[1]: de fase em fase, capítulo a capítulo, procurando elencar toda a produção fílmica portuguesa[2].
Segue-se, na quarta secção de Anuário, o “Ficheiro Biográfico” para o qual seguiram os editores a classificação das profissões adotada pelo Sindicato Nacional dos Profissionais de Cinema[3], adicionando-lhe, no entanto, novas categorias para fazer face a lacunas encontradas. Dividido em duas partes (técnicos e artistas), cada entrada do ficheiro – de facto muito além do mero “registo compacto de nomes, firmas, moradas” das publicações congéneres – inclui uma breve nota bio-filmográfica do retratado (por vezes não tão breve assim… e aí há que notar a diferença de extensão entre a “entrada” de A. Duarte ou L. Ribeiro e a de M. de Oliveira), para além do contacto postal e telefónico. A quinta secção de Anuário é como que um prolongamento visual do anterior, o “Álbum Fotográfico”, também de artistas e técnicos, na sua maioria pela lente de Joaquim da Silva Nogueira.
A penúltima secção de Anuário, subdividida em diversos pontos que a seguir se enumeram, é dedicada à “Actividade nas épocas 1943/44 e 1944/45”. Após uma breve visão de conjunto dessas duas temporadas, seguem-se os dados relativos às três áreas económicas: produção (lista da produção cinematográfica portuguesa nesse mesmo período com a publicação das fichas dos filmes que inclui, quando disponível, o número de semanas em cartaz), distribuição (listas dos filmes distribuídos em Portugal, organizados por distribuidora) e exibição (as salas de exibição cinematográfica em Portugal e, no caso dos cinemas de estreia em Lisboa e Porto, a listagem dos filmes aí estreados no período em questão). O relato das duas temporadas (43/44 e 44/45) continua com o “registo de filmes de fundo estreados em Portugal” em cada uma delas (listagens ordenadas pelo título português das obras) e com uma breve descrição da “Actividade dos organismos oficiais”. Curiosamente, é neste capítulo composto por dados essencialmente objetivos que encontramos, e pela primeira vez, alguma publicidade: diretamente, pela publicação de anúncios das companhias produtoras e distribuidoras, mas também indiretamente, pelas “entradas” do registo que se debruçam sobre a fundação, organização e equipamentos de um conjunto de empresas das áreas da produção, distribuição e exibição e cujos conteúdos (páginas 146 a 159) são genericamente autorretratos.
Anuário termina com uma compilação da legislação portuguesa específica sobre cinema.
Muito embora não se tenha constituído, como pretendia, como publicação de periodicidade anual – e talvez por isso em Breve História da Imprensa Cinematográfica Portuguesa, de Henrique Alves Costa[4] figure na secção-apêndice relativa a obras em forma monográfica –, o Anuário é um valioso “instantâneo” da(s) época(s) que retrata. E é hoje uma das fontes utilizadas na área específica de trabalho do Centro de Documentação e Informação da Cinemateca que se dedica ao enriquecimento dos dados e à desambiguação dos termos.

Teresa Barreto Borges

Anuário Cinematográfico Português, 1946
Tipologia documental: publicação periódica
Cota: PP 1151


[1] Edição póstuma, Cinemateca Portuguesa, 1983.

[2] Num estudo relativamente recente, Histórias da História do Cinema Português (2003), Paulo Cunha identifica-o como “o primeiro esboço de uma história do cinema português”.

[3] Sindicato criado no início dos anos 30 e que congregava profissionais das diversas áreas de toda a cadeia económica cinematográfica. A seguir ao 25 de Abril, contudo, alguns membros propõem a sua extinção e a criação de um novo órgão corporativo que não incluísse o núcleo de exibidores e distribuidores.

[4] Ed. Clube Português de Cinematografia, 1954.


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