História do Cinema: Adriano Aprà / Roberto Rossellini


O crítico e historiador italiano Adriano Aprà veio à Cinemateca apresentar uma seleção de cinco obras de Roberto Rossellini em 2016, na segunda das vezes em que participou nas “Histórias do Cinema”, depois de uma incursão no cinema de Michelangelo Antonioni em fevereiro de 2015. Os filmes de Rossellini escolhidos por Aprà para apresentar e comentar são GERMANIA ANNO ZERO, FRANCESCO GIULLARE DI DIO, STROMBOLI, ANGST e CARTESIUS.
Autor fulcral da História do cinema, indissociável do neorrealismo italiano e, de modo mais abrangente, do cinema moderno, Roberto Rossellini foi não apenas um cineasta prolífero mas também um incessante experimentador. Não raro os seus filmes estiveram no centro de momentos “revolucionários” em termos estéticos, de que os mais emblemáticos casos são porventura ROMA CITTÀ APERTA (1945) e VIAGGIO IN ITALIA (1953), sendo a fase final da sua obra marcada por um invulgar trabalho televisivo que, na última década e meia dela, perseguiu o ambicioso projeto de uma longa “história filosófica” da Humanidade. Rossellini foi ainda autor de uma produção teórica e escrita indelevelmente ligada à sua obra. Em Portugal, a retrospetiva organizada em 1973/74, pela Fundação Calouste Gulbenkian, foi um acontecimento cultural de importantes repercussões, com a presença de Rossellini e Henri Langlois em Lisboa na histórica sessão de ROMA CITTÀ APERTA. A Cinemateca dedicou-lhe uma retrospetiva integral em 2007, intitulada “Roberto Rossellini e o Cinema Revelador”.
Adriano Aprà é um dos maiores historiadores italianos e um dos nomes fundamentais da crítica europeia desde os anos setenta. Colaborador da revista Filmcritica e cofundador de Cinema e Film, dirigiu os festivais de cinema de Salsomaggiore (nos anos setenta e oitenta) e de Pesaro (durante a década de noventa), que foram dos mais exigentes de Itália. Dirigiu também a Cineteca Nazionale, em Roma, entre 1998 e 2002. Escreveu abundantemente sobre o cinema italiano, assim como sobre outros autores do moderno cinema europeu, entre eles Warhol, Godard ou Straub-Huillet. Reconhecido especialista da obra de Roberto Rossellini, Adriano Aprà acompanhou a retrospetiva da Cinemateca em 2007, altura em que, no respetivo catálogo, se publicou em português o seu texto “Enciclopédia Histórica de Rossellini”.
Das cinco conferências realizadas, a primeira, sobre GERMANIA ANNO ZERO, não será disponibilizada devido a insuficiências técnicas desse registo.


Histórias do Cinema: Adriano Aprà / Roberto Rossellini | sessão-conferência de 11 de outubro de 2016
sobre o filme FRANCESCO GIULLARE DI DIO / O SANTO DOS POBREZINHOS

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Moderação: Maria João Madeira

FRANCESCO GIULLARE DI DIO
O SANTO DOS POBREZINHOS
de Roberto Rossellini
com Aldo Fabrizi, Arabella Lemaître, Frei Nazario Gerardi, Padre Roberto Sorrentino, Frade Nazareno, Peparuolo e os frades do convento de Maiori e Baronissi
Itália, 1950 – 75 min
Episódios da vida de S. Francisco de Assis, numa das mais austeras obras de Roberto Rossellini, que aplica à época da ação as “técnicas” neorrealistas de ROMA, CITTÀ APERTA e PAISÀ. Totalmente filmado em exteriores e só com dois atores profissionais, é uma lição de humildade na forma e no tema, a propósito do patrono dos simples e dos humildes – “é o estilo que também é franciscano” (Rudolf Thome). Dividido em onze episódios, é um filme de uma limpidez despojada e essencial, que tanto parece antecipar algumas coisas da futura fase “televisiva” de Rossellini como abrir um caminho por onde enveredarão, anos mais tarde, certas obras de Straub e Huillet.


Histórias do Cinema: Adriano Aprà / Roberto Rosselini | sessão-conferência de 12 de outubro de 2016
sobre o filme STROMBOLI TERRA DI DIO

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Moderação: José Manuel Costa

STROMBOLI TERRA DI DIO
de Roberto Rossellini
com Ingrid Bergman, Mario Vitale
Itália, Estados Unidos, 1949 – 102 min
O primeiro filme de Rossellini com Ingrid Bergman (que “partiu de UNDER CAPRICORN para STROMBOLI”) marcou uma viragem importante no percurso do realizador e no da atriz. À época, Éric Rohmer comentou assim o filme: “STROMBOLI, grande filme cristão, é a história de uma pecadora tocada pela graça. (…) O autor de STROMBOLI bem sabe a importância que a sua arte pode dar aos objetos, ao lugar, aos elementos naturais do cenário. Dominando o poder que lhes confere, Rossellini faz deles os instrumentos da sua expressão, o molde de onde sairão os gestos e mesmo os impulsos dos atores”. Por muitas razões, uma das mais extraordinárias experiências em toda a história do cinema. “Este filme, duma beleza alucinante, é um filme sobre o cosmos. […] STROMBOLI é o poema da criação” (João Bénard da Costa).


Histórias do Cinema: Adriano Aprà / Roberto Rosselini | sessão-conferência de 13 de outubro de 2016
sobre o filme ANGST / LA PAURA / O MEDO

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Moderação: Antonio Rodrigues

ANGST / LA PAURA
O MEDO
de Roberto Rossellini
com Ingrid Bergman, Mathias Wieman, Renate Mannhardt, Kurt Krueger
Alemanha, Itália, 1954 – 84 min
Se todos os filmes em que Rossellini dirigiu Ingrid Bergman refletem a relação que os dois mantiveram, ANGST- LA PAURA representa o filme do fim e da separação. E é, talvez por isso, o mais perturbante de todos, porque se torna transparente que a personagem feminina é mesmo um duplo de Ingrid e a masculina um alter-ego de Rossellini. É também um admirável exercício de suspense “à Hitchcock” num filme sobre a manipulação. Vagamente baseado num conto de Stefan Zweig (1910), foi rodado em Munique em duas versões, em alemão e em inglês, com e sem final reconciliador. Em italiano é conhecido como NO CREDO PIÚ IN L’AMORE.


Histórias do Cinema: Adriano Aprà / Roberto Rosselini | sessão-conferência de 12 de outubro de 2016
sobre o filme CARTESIUS

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Moderação: José Manuel Costa

CARTESIUS
de Roberto Rossellini
com Ugo Cardea, Anne Pouchie, Claude Berthy, Gabriel Banchero, John Stacy, Charles Borromel
Itália, 1974 – 155 min
Visão da personalidade de René Descartes (1596-1650) segundo Rossellini, CARTESIUS é um dos seus trabalhos para televisão, considerado por Adriano Aprà “o filme mais destilado deste período”. “Se há personagem repugnante, ela é Descartes, porque era um cobarde, um preguiçoso, um amargurado terrível. Só que também sabia pensar. [Pensava, logo existia] Logo, era. Isso é muito cartesiano. Fiz Cartesius com todos os seus defeitos, com todas as suas cobardias. Foi um homem que nunca publicou o Discurso do Método por causa do processo de Galileu. Inventou as geringonças mais complicadas que imaginar se possa para escapar à perseguição da Igreja. […] Era um pulha do pior, mas muito competente a pensar, apesar disso” (Roberto Rossellini).



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