Histórias do Cinema: Adrian Martin / Fritz Lang


Adrian Martin veio à Cinemateca em 2016 para a edição das “Histórias do Cinema” dedicadas ao cinema de Fritz Lang, de que escolheu apresentar e comentar uma das obras folhetinescas do período alemão dos anos vinte (SPIONE); o “filme francês” de Lang, realizado no início da década de trinta entre a sua saída da Alemanha e o início da fase americana da sua obra (LILIOM); e três dos filmes realizados em Hollywood na década seguinte (os muito conhecidos SCARLET STREET e SECRET BEYOND THE DOOR, duas produções Diana, e o ainda hoje menos divulgado HOUSE BY THE RIVER).
Adrian Martin, australiano, é uma presença indispensável na cena crítica internacional desde os anos oitenta. Ligado ao meio universitário australiano – a Universidade de Monash, onde lecionou durante décadas – e com muito trabalho produzido nesse âmbito, a sua atividade transcende em muito esse contexto específico. Foi crítico de cinema em jornais e revistas australianas, e escreveu dezenas de ensaios, sobre os mais variados temas, para publicações europeias e americanas. Tem obra publicada em livro, sempre numa gama temática variada e eclética, que tanto o leva a escrever sobre o cinema de Raul Ruiz como sobre a vasta questão da “cinefilia” nos tempos modernos. Como editor da revista “online” Rouge, dirigida a partir da Austrália, foi um dos protagonistas da “revolução crítica” trazida, ou proporcionada, pela Internet, algo que teve sequência na fundação, mais recente, de outra revista “online”, Lola.
Nome maior do cinema alemão, primeiro, e do cinema americano, depois, a partir do seu exílio nos anos trinta. Fritz Lang (1890-1976) foi talvez o cineasta que, nas primeiras décadas do cinema, maiores vocações despertou, tendo sido uma influência crucial sobre, por exemplo, o jovem Hitchcock. Foi autor de algumas das mais espetaculares produções do cinema alemão dos anos vinte, nomeadamente METROPOLIS, e um dos primeiros a experimentar o som enquanto recurso dramático não “natural” (como em M). A sua passagem do “paraíso” do cinema alemão dessa época, onde era uma das personalidades mais populares e poderosas, à “fábrica” de Hollywood, onde nunca gozou da mesma liberdade, nem dos mesmos meios, nem do mesmo estatuto, gerou múltiplos equívocos durante décadas; mas a obra americana de Lang é a continuação da sua obra alemã “por outros meios”, com o nada despiciendo pormenor de, entretanto, ter existido o nazismo no seu país natal, e ter existido a guerra. O grande espetáculo dos anos vinte cedeu lugar a uma violência mais concentrada, cada vez mais fatalista e desesperada, numa perfeita habitação dos códigos e dos géneros do cinema americano, conciliada com uma argúcia no retrato psicológico (e também social) das personagens, sempre divididas entre a “realidade”, mais ou menos casual, dos seus atos (mesmo dos mais violentos), e a “abstração” dos grandes temas universais, como a culpa e a propensão para a violência latente nos seres humanos, articulações em que Lang se revela como um dos grandes pessimistas da história do cinema.


Histórias do Cinema: Adrian Martin / Fritz Lang | sessão-conferência de 23 de maio de 2016
sobre o filme SPIONE / ESPIÕES

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Moderação: José Manuel Costa

SPIONE
ESPIÕES
de Fritz Lang
com Rudolph Klein-Rogge, Gerda Maurus, Willy Fritsch, Lupu Pick, Fritz Rasp
Alemanha, 1928 – 200 min
SPIONE é uma das muitas incursões de Fritz Lang nos anos vinte no universo folhetinesco, de que também é exemplo DR. MABUSE DER SPIELER. Um dos momentos mais impressionantes do filme inspira-se num caso real, que tivera lugar poucos anos antes: o ataque da Scotland Yard à sede de uma organização anarquista em Londres, cheio de peripécias rocambolescas, com que Lang e Thea Von Harbou culminam esta nova digressão por uma Alemanha em crise, onde um super-criminoso dirige uma organização que quer controlar o mundo. “Talvez nunca, como em SPIONE, sob a aparência duma narração heteróclita e confusa, se tenha traçado uma espiral que tão contínua e elipticamente contenha todos os sinais que nos permitem, não só refazer o imaginário mítico dos anos vinte, como fundi-lo noutro mais vasto que é o do próprio cinema enquanto efeito de ilusão e enquanto efeito de real” (João Bénard da Costa).


Histórias do Cinema Adrian Martin / Fritz Lang | sessão-conferência de 24 de maio de 2016
sobre o filme LILIOM

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Moderação: Antonio Rodrigues

LILIOM
de Fritz Lang
com Charles Boyer, Madeleine Ozeray, Florelle, Antonin Artaud
França, 1934 – 117 min
Realizado em Paris, entre a saída de Lang da Alemanha em 1933 e o seu primeiro filme americano em 1936, LILIOM é a segunda adaptação ao cinema de uma célebre peça de Ferenc Molnár, previamente filmada por Frank Borzage. Trata-se de um filme peculiar na filmografia de Lang, história de um homem que ao morrer chega ao céu e vê que o “outro mundo” é quase igual a este, com burocratas e regulamentos. Ao filmar o “outro mundo” como se deste se tratasse, Lang também fez uma reflexão sobre o cinema e sobre o seu trabalho. “Genialmente fotografado por Rudi Mate (na sua única colaboração com Lang), com Charles Boyer na criação da sua vida, LILIOM é a desmontagem implacável do absurdo da repressão e da justiça, leis deste mundo e do outro. Num certo sentido, é o filme mais anárquico de Lang; noutro, o mais claustrofóbico” (João Bénard da Costa).


Histórias do Cinema Adrian Martin / Fritz Lang | sessão-conferência de 25 de maio de 2016
sobre o filme SCARLET STREET / ALMAS PERVERSAS

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Moderação: Luís Miguel Oliveira

SCARLET STREET
ALMAS PERVERSAS
de Fritz Lang
com Edward G. Robinson, Joan Bennett, Dan Duryea
Estados Unidos, 1945 – 100 min
Segunda versão do romance de La Fouchardière, anteriormente adaptado por Jean Renoir em LA CHIENNE. Trata-se da história de um pintor que abandona a mulher e mata a amante num acesso de ciúmes. Em relação à versão de Renoir, Lang abandona a faceta realista para acentuar uma sombria incursão pela culpa e pelo peso do destino, numa atmosfera de filme negro. Volta a dirigir Edward G. Robinson e Joan Bennett. “Os dois temas que Lang escolheu para as suas produções Diana [SCARLETT STREET e SECRET BEYOND THE DOOR] giram à volta do assassínio da mulher e da solidão do homem. Sem qualquer complacência, e de algum modo crucificando-se quando envelhece Robinson e o faz ser humilhado por Bennett, insistindo na sua fealdade e na repugnância física que ele lhe inspira” (Bernard Eisenschitz).


Histórias do Cinema Adrian Martin / Fritz Lang | sessão-conferência de 26 de maio de 2016
sobre o filme SECRET BEYOND THE DOOR / O SEGREDO DA PORTA FECHADA

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Moderação: Luís Miguel Oliveira

SECRET BEYOND THE DOOR
O SEGREDO DA PORTA FECHADA
de Fritz Lang
com Michael Redgrave, Joan Bennett, Anne Revere, Barbara O’Neil
Estados Unidos, 1948 – 98 min
Um dos mais rigorosos filmes de Fritz Lang em Hollywood, construído como um mecanismo de relógio ou como um desenho arquitetónico. A prodigiosa sequência dos quartos, na qual a perturbação é introduzida por uma quebra de simetria, reflete também um universo mental em que o desequilíbrio se instala. Na década da psicanálise no cinema americano, SECRET BEYOND THE DOOR é o filme onde ela tem mais importância, sendo também aquele em que menos se faz sentir. “É um dos mais fascinantes, encantatórios e complexos filmes de Fritz Lang, uma das suas grandes obras-primas, ou seja, uma das grandes obras-primas da História do Cinema” (João Bénard da Costa).


Histórias do Cinema: Adrian Martin / Fritz Lang | sessão-conferência de 28 de maio de 2016
sobre o filme HOUSE BY THE RIVER / A CASA À BEIRA DO RIO

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Moderação: Luís Miguel Oliveira

HOUSE BY THE RIVER
A CASA À BEIRA DO RIO
de Fritz Lang
com Louis Hayward, Jane Wyatt, Lee Bowman, Ann Shoemaker
Estados Unidos, 1950 – 88 min
HOUSE BY THE RIVER é um dos filmes menos conhecidos de Fritz Lang (passou despercebido na época da estreia e saiu de circulação durante largos anos), singularmente próximo do universo de Hitchcock com o tema da permutabilidade da culpa. Um escritor mentalmente perturbado, assassina a criada quando tenta abusar dela, tornando o seu irmão cúmplice do ato e servindo-se de tudo como matéria para o seu livro que se tornará prova incriminatória. “Mesmo com uma rodagem rápida (32 dias), com atores obscuros e sem grande notabilidade (à exceção do estranho Louis Hayward, de quem emana uma verdadeira ‘malaise’), Lang faz de HOUSE BY THE RIVER uma obra simultaneamente compacta e armadilhada, um filme que o toca intimamente, próximo de THE WOMAN IN THE WINDOW, em que qualquer um pode ser estimulado por um movimento assassino” (Bernard Eisenschitz).


Consulte aqui as fichas detalhadas do programa.

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