Histórias do Cinema: Alberto Seixas Santos / Straub-Huillet


O cinema de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, num percurso pensado, comentado e conduzido por Alberto Seixas Santos ao longo de cinco sessões e seis filmes: “NÃO RECONCILIADOS OU SÓ A VIOLÊNCIA AJUDA ONDE A VIOLÊNCIA REINA” (1965), o filme que tornou conhecidos os nomes dos cineastas; OTHON (1969), título breve do filme que parte da tragédia homónima de Corneille; DALLE NUBE ALLA RESISTENZA (1979), baseado em dois textos de Cesare Pavese; “RELAÇÕES DE CLASSES” (1984), adaptação de “Amerika” de Kafka; e, reunidos na mesma última sessão, juntando os motivos dos quadros de Cézanne e de uma partitura de Schoenberg, “CÉZANNE” (1989) e “INTRODUÇÃO À ‘MÚSICA DE ACOMPANHAMENTO PARA UMA CENA DE CINEMA’ DE ARNOLD SCHOENBERG” (1972). A obra de Straub-Huillet tem vindo a ser apresentada na Cinemateca desde 1981 e é presença regular na sua programação, tendo sido alvo de duas retrospetivas, a primeira em novembro de 1998, que contou com a presença em Lisboa dos cineastas e foi ocasião para a publicação de um catálogo, a segunda em setembro e outubro de 2018.

Realizador, mas também crítico, professor e programador de cinema, o percurso de Alberto Seixas Santos (1936-2016) esteve diretamente associado ao surgimento do Cinema Novo na viragem das décadas de 1960 e 70, extravazando o âmbito da sua obra. Passou pelo cineclubismo, pela crítica, pelo ensino, atividades em que deixou marcas fortes e fizeram dele um dos espíritos mais influentes no meio do cinema português. Como cineasta, entre BRANDOS COSTUMES (primeira longa-metragem, em 1975) e o último E O TEMPO PASSA (2011), assinou vários títulos fundamentais das últimas décadas, num diálogo continuado com o Portugal contemporâneo que fez do cinema um instrumento de pensamento, interrogação e afirmação, atravessado por um intransigente desejo de modernidade a que não foi estranha a influência de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet.


Histórias do Cinema: Alberto Seixas Santos / Straub-Huillet | sessão-conferência de 27 de fevereiro de 2012
sobre o filme “Não Reconciliados, ou Só a Violência Ajuda onde a Violência Reina”

Moderador: José Manuel Costa

NICHT VERSÖHNT oder ES HILFT NUR GEWALT WO GEWALT HERRSCHT “Não Reconciliados, ou Só a Violência Ajuda onde a Violência Reina”
de Jean-Marie Straub, Danièle Huillet
com Heinrich Hagersheimer, Carlhein Hagersheimer, Martha Ständner
Alemanha Federal, 1965 – 53 min

Realizado a seguir a uma curta-metragem (MACHORKA MUFF), NICHT VERSÖHNT foi o filme que tornou conhecidos os nomes de Straub e Huillet – depois de provocar um pequeno escândalo no Festival de Berlim 65, onde foi exibido pela primeira vez. Com base numa novela de Heinrich Böll, trata-se, nas palavras de Straub, de “uma espécie de filme-oratório” que narra “a história de uma frustração, a frustração da violência, a frustração de um povo que falhou a sua revolução de 1848 e que não conseguiu livrar-se do fascismo.”


Histórias do Cinema: Alberto Seixas Santos / Straub-Huillet | sessão-conferência de 28 de fevereiro de 2012
sobre o filme Les yeux ne veulent pas en tout temps se fermer ou peut être qu’un jour Rome se permettra de choisir à son tour/ Othon

Moderador: Luís Miguel Oliveira

LES YEUX NE VEULENT PAS EN TOUT TEMPS SE FERMER OU PEUT ÊTRE QU’UN JOUR ROME SE PERMETTRA DE CHOISIR À SON TOUR/ OTHON
de Jean-Marie Straub, Danièle Huillet
com Adriano Aprà, Anne Brumagne, Ennio Lauricella, Olimpia Carlisi
França, 1969

Usualmente referido pelo seu título breve, OTHON parte da tragédia homónima de Pierre Corneille cujo texto original e completo é o texto do filme, ensaiado e trabalhado pelos atores ao longo de três meses. Sobre o poder e o amor, OTHON é também “um filme sobre a ausência do povo. O filme é como uma série de espelhos, o espelho de Tácito refletindo a História que ele conhecia direta ou indiretamente, depois o espelho de Corneille refletindo Tácito, o meu espelho refletindo Corneille, o espelho da realidade contemporânea (…) refletindo Corneille e eu refletindo tudo isto” (J.-M. Straub).


DALLE NUBE ALLA RESISTENZA
de Jean-Marie Straub, Danièle Huillet
com Olimpia Carlisi, Guido Lombardi, Gino Felice
Itália, 1979

Baseado em dois textos de Cesare Pavese (“Dialoghi com Leucò” e “La Luna e i Falò”), este filme vai “da nuvem, ou seja da invenção dos deuses pelos homens, até à resistência quase imediata.” Um dos filmes preferidos de Straub-Huillet e um dos mais belos entre aqueles que fizeram na “casa da língua italiana”. Ao mesmo tempo metáfora e reflexão, também sobre a forma cinematográfica, uma rigorosa obra-prima.


KLASSENVERHÄLTNISSE
“Relações de Classes”
de Jean-Marie Straub, Danièle Huillet
com Christian Heinisch, Reinald Schnell, Anna Schnell, Laura Betti
França, 1984 – 122 min

Baseado em Amerika de Kafka, livro para o qual o escritor escolhera originalmente como título Der Verschollene/ “O Desaparecido”, que conta a história de um imigrado alemão nos Estados Unidos que encontra pessoas que falam alemão. “O filme intitula-se ‘RELAÇÕES DE CLASSES’ [e não ‘LUTA DE CLASSES’] porque tudo o que sucede a Karl Rossman tem relação com isto. Nos dois sentidos, aliás, para cima e para baixo” (J.-M. Straub). Belíssima adaptação, belíssimo filme.


CÉZANNE
de Jean-Marie Straub, Danièle Huillet
França, 1989 – 50 min

EILEITUNG ZU ARNOLD SCHOENBERGS “BEGLEITMUSIK ZU EINER LICHTSPIELSCENE”
“Introdução à ‘Música de Acompanhamento para uma Cena de Cinema’ de ‘Arnold Schoenberg’”
de Jean-Marie Straub, Danièle Huillet
Alemanha Federal, 1972 – 16 min

CÉZANNE é um dos filmes mais intensamente belos de Straub e Huillet. Sobre alguns quadros de Cézanne, sempre filmados na totalidade da sua superfície, com a moldura, numa parede, ouvimos em off a leitura de trechos dos diálogos de Cézanne e Joachim Gasquet, intercalados com cenas de MADAME BOVARY, de Renoir, e de DAS TOD DES EMPEDOKLES, dos próprios Straub-Huillet. Quinze anos depois os cineastas seguirão um princípio semelhante para filmar UNE VISITE AU LOUVRE. “Schoenberg é o músico que melhor conhecemos a seguir a Bach”, segundo diz Straub. E o segundo filme da sessão é sobre uma partitura escrita por Schoenberg para um filme imaginário sobre o tema “Perigo Ameaçador. Angústia. Catástrofe”, com leitura de trechos de cartas de Schoenberg a Kandinsky.


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